Mostrando postagens com marcador Prosas poéticas.. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Prosas poéticas.. Mostrar todas as postagens

Quimeras

    Por muito tempo estive preso na inércia da estagnação. Na mesmice da impossibilidade de ação, rondei meus próprios assombros e os desafiei. Descobri e digo sem medo: escrever é uma questão de segurança. Agora, olho-me no espelho e suplico: jamais deixe a insegurança te amordaçar. Não permita que os pesos da dúvida te sirvam de grilhão. Escrever liberta: dá asas, se me permite o clichê. É um ato que nos enche os pulmões de coragem, mas que, antes, demanda certa valentia. Requer que você vá de peito limpo e cara lavada e imponha suas palavras ao mundo, sejam elas sóbrias ou poéticas. Os bloqueios que te barram são monstros de suas próprias inseguranças que devoram sua voz. Você não é suas próprias fraquezas; não admita que elas te alienem de si mesmo. Abatamos quimera por quimera com as navalhas afiadas das palavras.

Do céu e da guerra

    A música me fortalece. Dela retiro o sustento de meus ossos e a força que me mantém em pé, fazendo-me caminhar em frente, sempre de cabeça erguida para contemplar os céus e recuperar a beleza das estrelas que nos foi roubada pela modernidade febril. O céu! O mesmo céu que durante milênios ensinou à espécie humana o que significava ser magnânimo, intangível, intransponível! Que nos lembrava da nossa pequenez pueril, da nossa imersão irremediável no fundo do abismo de Gaia!
    1969. Tudo mudou. Atravessamos os ares, mergulhamos no vácuo do negrume infinito e nos abrigamos forçosamente na timidez da Lua. Ela, que antes se isolava em seu próprio esplendor curioso, tinha agora sua privacidade invadida por pés galopantes e sua virgindade violada por bandeiras de nações distintas, egoístas, perdidas na briga tola de egos insignificantes. Fez-se a guerra. Banhou-se de sangue territórios inteiros, terras de ninguém, a mando dos poderosos que se deliciavam em seus charutos de grife.
    E assim se ergueu a humanidade: sob a música, que erigiu povos e amores, tida como estupidez vaidosa, e sob a ganância por cifrões vazios vistos como o bem necessário ao progresso. Amém?

Anna Maria

    É nos olhos que se esconde uma beleza tímida; ela espreita pelos pensamentos e transparece na sutileza de cada gesto. Um sorriso cansado, de leve resignação e lições levadas pelo tempo. Um olhar tão doce quanto se pode ser. A vida esmagou suas expectativas, mas persistiu sob aquelas pesadas solas alguma esperança. Sua voz tremulava junto com a bandeira branca: atestado irrevogável de paz. Abraçou a dor e para ela lançou-lhe um sorriso tranquilo. Aquelas núpcias de outras noites eram agora o substrato de um futuro apagado pelo passado. Encontrava afago na música e no canto dos pássaros de cada manhã. E, com uma palavra branda e um tom de voz sereno, afogava todos na profundidade do castanho de seus olhos.



— NOTA —
Wild Child: há algum tempo tenho estado encanado (ou encantado, se preferirem) com essa banda. E, partindo da ideia de tentar descobrir a personalidade de uma pessoa olhando em seus olhos, a partir dos meus próprios, me envolvi num certo lirismo com a vocalista, que canta, toca violino e traz uma paz muito grande no olhar. Foi pensando nela — e também em vocês, com quem eu queria compartilhar essa música linda — que escrevi esse texto.

Orgulho

    Dizem por aí que o orgulho pode, de duas uma: impedir-te de fazer papel de trouxa ou de ser feliz. Diante disso, eu digo: arrisca-te! O "não" tu já tens; a vida é cheia deles. O pior que pode acontecer-te é receberes mais um. Engole esse orgulho, levanta essa cabeça e vai pra luta, armado de sinceridade e humildade. Conta à pessoa os teus anseios e receios. Na pior das hipóteses, recolhe tuas coisas e segue em frente. Sem orgulho ferido, é claro, porque o orgulho tu já jogaste fora há tempos. A tua parte fizeste, nem que por desencargo; melhor ter a consciência limpa a arrepender-te de algo que não tivera coragem de fazer. Lembra-te que são de feridas e cicatrizes que são feitas as peles resistentes. E, mais, faze da matemática tua aliada: por menor que seja a chance de ser feliz, qualquer coisa é maior que o 0% que estarás escolhendo ao desistir antes de tentar.

Pegadas na areia

    Nunca morremos, pelo menos não de verdade. O mundo parte de nós, mas o fato é que nunca partimos dele. Ficam aqui nossos ideais, medos e paixões. Fica aqui tudo o que nos faz verdadeiramente humanos. Uma biblioteca contém mil e uma almas, eternizadas pelas palavras. Horcruxes de tinta e papel.
    Não somos imortais da maneira prepotente como Hollywood costuma pintar seus heróis. Ao contrário destes, somos frágeis, cosmicamente insignificantes, imperfeitos. Refiro-me a um tipo deveras diferente de heroísmo e sobretudo de imortalidade. Um tipo que definitivamente não está relacionado à ideia (des)confortável de viver incontáveis milênios. Um tipo que não está nos discos, nem na poesia composta pela metade. Falo, antes, de uma imortalidade real, palpável, humilde e que está bem debaixo de nosso nariz.
    Servimos de alimento para as flores que aparecem timidamente sobre nossos túmulos. Porém, mais que isso, cada uma das sementes que plantamos ao decorrer da vida nasce e floresce em todas as pessoas que tocamos de alguma forma. Sempre haverá um pouco de nós na gentileza de nossos filhos e netos, que decerto aprenderam algo conosco e nos levam em forma de gestos. Deixamos marcas, pegadas muito fundas na areia, e elas estarão sempre ali para os que tiverem a sensibilidade para vê-las.

Incertas certezas
(e vice-versa)

    Talvez uma das maiores mentiras que nos são contadas quando crianças é a de que a ordem dos fatores não altera o produto. Os que dizem isto decerto nunca leram Machado de Assis, pois quem leu, bem sabe a diferença entre um autor defunto e um defunto autor. Existe ainda a questão do velho amigo que não é velho, além de muitos outros exemplos que não vêm ao caso. O título, por outro lado, não só vem ao caso como também segue o mesmo padrão de ordem/sentido.
    Estou cansado das pessoas que têm incertas certezas; das que arrogam verdades absolutas e para isto fazem o uso, no melhor dos casos, da voz alta, como se o volume pudesse dar alguma autoridade ao que dizem, ou até mesmo do ad hominem. Digo "no melhor dos casos" pois em outras épocas o instrumento de propriedade argumentativa fora a brutalidade em sua forma mais violenta. Afinal, a Terra era o centro do universo e dá-lhe Fogueira Santa a quem não aceitasse isso.
    De incertas certezas a História já está carregada e disto o mundo não precisa. Certas incertezas, por outro lado, são bem-vindas. Ter dúvidas é reconhecer nossa defeituosa humanidade e dar o primeiro passo em direção ao conhecimento. É preciso acolher as incertezas e buscar saná-las com humildade. Ter o benefício da dúvida é poder dizer "não sei" sem medo, pois somos humanos e estranho seria se tivéssemos tudo na ponta da língua.
    Arrisco que talvez todo o extremismo pudesse ser evitado se as pessoas levassem suas incertezas mais a sério; se colocassem a arrogância de lado por um minuto e cogitassem a natural possibilidade de estarem enganadas. Se assim fosse, teríamos menos sangue e mais humanidade nas páginas dos livros de História.

Coisas

    Muitas vezes, as coisas da vida podem não ser lá muito agradáveis. Não gosto, por exemplo, de pessoas que teimam em levar seus bebês a determinados eventos. Neste caso, a Lei de Murphy por si só já garante que estes mesmos bebês chorarão justamente nos momentos mais importantes, como numa sessão solene. Não gosto tampouco dos cachorros das casas vizinhas que latem de forma tão incessante a perder o fôlego e, não se contentando com isso, nos fazem perder o sono, nem de vendedores que passam longos minutos fazendo propaganda e insistem em "enrolar" o máximo possível antes de finalmente dizer o valor do produto. Acho peculiarmente infeliz a mania que algumas pessoas possuem de Escrever Cada Palavra Com A Inicial Em Letra Maiúscula. Não gosto de gente que exige respeito através do medo. Não gosto de desinformação, nem de "achismos" e muito menos de preconceito disfarçado ("Não tenho nada contra, mas...").
    Não suporto buzinas. Além de inúteis — pois na imensa maioria das vezes já sabemos que estamos atrasados —, elas só fazem é aumentar ainda mais o desespero e a irritação. Elas são a representação sonora da impaciência do século XXI.
    Não. Eu gosto é de pessoas espontâneas, de conversas autênticas, de coisas que me façam sorrir. Gosto de aromas que tragam consigo lembranças, e de sabores para fechar os olhos e aproveitar cada mastigada. Gosto de falas pausadas, de palavras em uma tranquila sintonia, de tempo para ler e respirar. Gosto de participar de conversas paralelas durante o almoço de domingo com a família, e também gosto de ouvir o silêncio noturno quebrado somente pelo cri cri dos grilos. Gosto de comer sem culpa, de ler na varanda, de fechar os olhos e apreciar a inabalável beleza do luar em forma de som. Gosto de coisa descomplicada, de prosa corrida e principalmente despretensiosa, como esta aqui.