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Saudade

Bem que dizem
Que há sempre dois prazeres em viajar:
O de partir
E o de chegar.

Matei a saudade daqui
E, agora,
Tenho saudade de lá.

Viagens são, afinal
A maneira pela qual
Tentamos encontrar nosso coração
Mas ele, distante em algum ponto inalcançável,
Sempre repousa longe de nós.

É a busca que dá sentido.

Movimento.

Desejamos estar onde não estamos.
Pertencemos em tudo.
Não nos encontramos em nada.

Silêncio

De rodeio em rodeio
Enrolaram-se no silêncio
Do subentendimento

Disseram, disseram
E no fim
Não disseram nada
Um ao outro

Chave

Já dizia Clarice
Não a ruiva, de papel
Mas a que antes foi de carne,
osso e pensamento
E que hoje é só osso e pensamento.

Já dizia-me ela,
a Clarice do meu eu
lírico, interior:

"Por que te importas?
Que te importas?

Cá estou aqui,
tênue linha do real e do irreal.
Pois que ainda assim
Tens em mim e somente em mim
a resposta."

Busco conforto, sim
Mas busco antes compreensão
E sobretudo reconhecimento
Dos que serão, um dia
portadores da chave.

A dúvida, portanto
Ressoa como as poderosas engrenagens
Em cujo ruído fora aberta.

Ponteiros

Nem sempre se ouve o tic tac
Embora ele esteja lá
Literalmente o tempo todo

Sutil, ele se faz audível
Mas somente para os atentos.
Em uma questão de segundos
Seu ritmo calmo se torna inquietante
E perturba o sono dos que ouvem-no

Algo que antes
Era comum, constante
De repente, se torna incômodo

Tic Tac
Os ponteiros estão correndo
Barulhentos, cruciantes
Segundos, minutos, horas, dias, anos
Tudo escapa às mãos
Escorre pelos dedos

Você não pode controlá-lo
Você não pode comprá-lo
Pois ele, o tempo
Não se rende às exigências do Homem
E sim o contrário

Os ponteiros se movimentam
Todo dia, toda hora
Mas os poucos que percebem
Tentam silenciar o relógio que tanto os preocupa
Para que possam voltar a dormir, tranquilos

E assim o tic tac da vida continua
Silencioso num canto, irrefreável