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O antipetismo e a desesperança política

    Não costumo falar a respeito de política partidária porque, de um ponto de vista pragmático, estas discussões raramente passam de discursos vazios, cegados pelas paixões ideológicas. Apesar das romantizações da democracia teórica, é de conhecimento geral que esta mesma democracia foi solapada pelos grandes candidatos, que pegam carona no financiamento privado e fazem seu sucesso no ventre da ignorância e do desespero da população. Ao cabo, o que resta é apenas um jogo sujo entre máfias, ditas partidos, que se ancoram na ingenuidade fervorosa das pessoas, de modo a sobrar pouca ou quase nenhuma razoabilidade a ser solo de qualquer tipo de discussão produtiva. Assim, abro aqui neste texto uma exceção no compromisso que firmei comigo mesmo de não abraçar este tipo de assunto decisão que tomei para evitar ainda mais amarguras em vão pois partilho do sentimento generalizado de que o país está passando por um cataclismo político, não sendo este, portanto, o melhor momento para nos resguardarmos ao silêncio.

    Dias atrás cometi o deslize de lançar, sem pretensão alguma, um olhar na TV. Me arrependi amargamente, como todas as vezes em que o tenho feito, mas isto não vem ao caso; o pertinente a ser dito aqui é que um destes noticiários de horário nobre mostrava o seguinte levantamento estatístico: "O ex-presidente Lula é culpado?". Do que era culpado exatamente, não estava escrito, mas a eles pouco importava; nesta popularização (ou, por que não, banalização) do sistema penal, a única coisa que parece ter relevância é a punição. Mas ainda mais bizarro que este desprezo pela especificação e pela própria confirmação do crime é a presunção de que um processo penal pode ser decidido, ainda que apenas em hipótese, por plebiscito. A única resposta sensata à enquete televisiva seria "não sei", o que foi respondido apenas por uma insignificante porcentagem das pessoas e que, na verdade, deveria ter sido escolhido pela totalidade delas. Ora, uma coisa seria avaliar a credibilidade que possui a pessoa do Lula e o próprio partido que ele representa (o que, por óbvio, está seriamente comprometida); outra é querer que a população confirme um fato que é objetivamente verificável, quando muito, apenas pelo Poder Judiciário, jamais pelas crenças individuais das pessoas. O Brasil não é um grande Júri Popular, embora sugiram o contrário os crescentes movimentos de linchamentos que, em nome da "justiça pelas próprias mãos", promovem eles mesmos a averiguação do crime em suas próprias consciências e a aplicação das penas. O dia em que condenações forem emitidas com base na mera opinião de um grupo de pessoas, o Direito Penal estará sepultado.
    É claro que, da mesma forma, é um grave equívoco advogar cegamente pela inocência de figuras políticas envolvidas em casos de escândalo global. A resposta da enquete continua devendo ser necessariamente "não sei", pois, de fato, não há como saber. A isenção premeditada de culpa — ou seja, afirmar de antemão que tais indivíduos são inocentes, bem como manifestar-se contra a investigação destes — é algo que se isola numa ingenuidade frágil e quase obscena. Já disse isso em diversos textos (como nesse e principalmente nesse), mas por vezes é preciso reiterar o óbvio: os pontos positivos de um governo não podem jamais ser usados como escudo a críticas. O Partido dos Trabalhadores (PT) não está imune às investigações apenas porque melhorou substancialmente a qualidade de vida de boa parte da população que antes se encontrava na miséria. Uma coisa não anula a outra; é preciso saber ponderar e reconhecer os lados bons e ruins de um governo com a seriedade que este tipo de análise exige.
    Ademais, a abissal falta de credibilidade do partido mencionado não se dá majoritariamente pela "angústia que os ricos têm ao ver a ascensão de outras classes"; esta é uma resposta simplista e, mais do que isso, uma nítida falácia do espantalho. É, na realidade, fruto de uma descrença que contamina todo o sistema eleitoral por conta de uma alarmante crise de representatividade. As ruínas da velha política estão à mostra e os projetos de poder pelo poder ficam cada vez mais evidentes. É algo que se alastra por todos os partidos e por todos os âmbitos do poder. O PT encabeça essa desilusão política em razão da enviesada necessidade humana — incorporada sobretudo às massas — de associar determinados fenômenos a figuras políticas, principalmente as que ocupam o cargo mais importante da nação: a presidência.
    Desfazer essa ideia infantil de que o PT é responsável por todo o mal do Brasil é vital para o comprometimento com a lucidez do debate político, mas é algo que tem sido feito de uma forma consideravelmente porca. Apontar a crítica seletiva da população e do oligopólio midiático se faz indispensável nessa árdua tarefa de combater a paranoia conspiracionista que tem se tornado o antipetismo; no entanto, se há respeito à honestidade intelectual, isto não deve ser conduzido pela lógica que exime o PT apenas porque a corrupção não é exclusividade sua. A incoerência deve ser obrigatoriamente combatida, mas de modo a submeter à crítica social e à justiça institucional absolutamente todos os partidos e indivíduos, independentemente de seus alinhamentos políticos. O PT não deve ser exceção: nem para ser integralmente culpabilizado e muito menos para ser isentado.

Publicidade infantil e o lucro ilegítimo

A minha crítica é que, apesar de haver vários temas oportunos que dizem respeito a este ano, como a Copa do Mundo, o problema da escassez de água em São Paulo, os cinquenta anos de Golpe Militar ou mesmo as questões territoriais dos curdos, palestinos, catalães e escoceses, o Enem resolveu propor uma temática completamente inesperada e descontextualizada. Isso fez com que, de certo modo, eu precisasse maquear minha falta de posição sólida em relação ao assunto utilizando um vocabulário rebuscado; talvez até demais.
Temática de redação do Enem 2014: "Publicidade infantil em questão no Brasil". Clique aqui para ler a proposta e a coletânea.
    A dinâmica social de um século atrás é, decerto, deveras distinta da atual, pois esta última engloba sistemas cuja tecnologia era impensável antes da Revolução Informacional. Parte disso está intimamente ligado com a mídia, a qual desempenha um papel decisivo na sociedade contemporânea, o que inevitavelmente implica em graves efeitos em nossa vida e na das crianças, embora alguns setores — especialmente os que lucram com isso — recusem-se a admitir.
    A relevância midiática em nosso modo de pensar e agir já foi brilhantemente notada e estudada pelos sociólogos da Escola de Frankfurt, precursora de um tipo de antropologia alemã. As consequências do consumo de informações são, conforme concluído pelos próprios estudiosos, profundas, sobretudo se este consumo for de cunho inconsequente e desenfreado. Tendo consciência disso e da perigosa influenciabilidade à qual estão suscetíveis as crianças, o Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) determinou a abusividade de quaisquer propagandas que visem a este público.
    Esta decisão causou uma certa revolta e, inclusive, uma tórpida desconfiança na legitimidade do Conanda para estabelecer tal medida, o que revela o quão desesperadas estão as empresas deste segmento para lucrar, ainda que a custo de tirar proveito do razo e parco senso crítico das crianças. No entanto, por maior que seja a resistência corporativista, é não somente bem-vinda como também necessária a ação que impede o bombardeio de incentivo consumista ao público infantil. A criança deve sim ser preparada para o mundo, porém, jamais exposta prematuramente a ele de forma negligente.
    Nesse sentido, é genuinamente requerida a proibição de propagandas de natureza persuasiva aos pequenos, assim como já acontece em lugares altamente desenvolvidos tais como o estado canadense do Quebec ou a Noruega. Ademais, é preciso que o sistema educacional atualize-se e adapte-se à contemporaneidade, criando e aperfeiçoando uma matéria escolar de cidadania que obrigatoriamente abarque o consumo consciente, tendo sempre a razão como sustentáculo de modo a sobrepor a danosa influência midiática.

O Ebola e a
xenofobia patológica

    O Ebola é uma epidemia que tem se alastrado na porção ocidental da costa africana e tem tido ocorrências esporádicas de providência imigracional nos Estados Unidos e na Espanha, causando sobretudo erupções subcutâneas e hemorragias sérias de efeitos mortais. No Brasil, a natureza letal do vírus acabou por criar um terror infundado na população, apesar de não haver casos confirmados da doença em território nacional.
    O fato é que, muito embora exista sim uma certa contagiosidade deste Filo virus, esta não condiz com o imaginário popular que o associa a doenças transmissíveis pelo ar, como a tuberculose. O Ebola tem como vetores, na verdade, animais silvestres, dentre os quais se destacam os morcegos frutíferos, além de ter como vetores secundários as secreções endócrinas e exócrinas de humanos contaminados. Entretanto, a desinformação toma proveito da ingenuidade e do desespero alheios para corroborar a disseminação de boatos mal-intencionados.
    A mera insinuação de que o Ebola teria chegado ao Brasil fez com que fosse despertada nas pessoas uma preocupante xenofobia, o que não deixa de ser, mesmo que no sentido conotativo, outra patologia. Existe em torno desta problemática uma noção tórpida, frequentemente alimentada por ódio, que cria uma suposta relação entre as incontáveis etnias africanas com a doença em questão.
    Esta mesma xenofobia acaba se mesclando com o racismo, pois mesmo imigrantes haitianos, cuja proveniência é a América Central, estão sofrendo discriminações impronunciáveis na cidade de Cascavel, Paraná. Isto revela a ignorância das pessoas ao fazerem uma associação entre a cor da pele com a — errônea — origem geográfica que teoricamente justificaria uma aversão desumanizante e míope a estes povos, a qual nos remete invariavelmente à triste natureza histórica escravocrata da cultura brasileira.
    Isto tudo não apenas produz graves efeitos sociais, como também impede que haja uma efetiva divulgação das informações reais acerca do Ebola, impossibilitando assim uma prevenção e tratamento maiores.
    A situação requer medidas governamentais urgentes no sentido de capacitar o aparelhamento de saúde pública com centros especializados para lidar adequadamente com problemas que exijam atitudes imediatas, tanto com os métodos convencionais homologados quanto com tratamentos experimentais, contanto que estes não sejam danosos à integridade e dignidade do paciente. E, em absolutamente todos os casos, ainda que seja necessário o isolamento provisório, o enfrentamento da epidemia deve dar-se de forma madura, solidária e, principalmente, sem a culpabilização das vítimas.

— ELEIÇÕES —

Dilma ou Aécio:
dos males, o menor

    Com 18 anos, estou longe de ter uma posição política formada; até porque, se assim o tivesse, seria uma preciosa dica do quão cego determinada ideologia me deixara. Cá entre nós, ainda que eu tivesse 81 anos, não seria sensato cessar a busca por respostas e conformar-me com as que já obtive, cristalizando-as e defendendo-as de forma dogmática.
    Sendo assim, faz-se necessário dizer que este texto definitivamente não é um guia de como governar um país (deixemos isso para Maquiavel, sim?), mas, na melhor das hipóteses, uma coletânea de conclusões às quais esteve ao meu alcance chegar e que, lembremos, estão sujeitas a mudanças.
    Quem quer que vença as eleições, seja Dilma Rousseff (PT) ou Aécio Neves (PSDB), pouco importa. As nuances entre os eventuais mandatos dos dois oponentes são sim significativas, no entanto, de qualquer modo será insatisfatório. Isso porque, quanto à maioria das posturas práticas, não muda muita coisa. Ambos são campeões em corrupção; isso não é novidade para ninguém e uma rápida pesquisa na internet é suficiente para relevar informações assustadoras sobre os partidos que vão ditar as diretrizes do nosso Executivo nos próximos quatro anos. Além disso, as empresas magnatas que financiam as campanhas dos grandes presidenciáveis são as mesmas, certificando-se que o eleito, quem quer que seja, terá com elas "dívidas informais", digamos assim. E desta forma consolida-se cada vez mais a tão chamada plutocracia. O canal de humor Porta dos Fundos, sempre muito politizado, ilustrou a situação de maneira brilhante em seu vídeo "Financiamento", o qual disponibilizo abaixo.



    Contudo, vale lembrar que não existe a opção "tanto faz" nas urnas. Até existe, mas votar em branco, nulo ou mesmo não votar é desistir do direito que lutamos quase quatrocentos anos para conquistar. É frustrante, e eu entendo perfeitamente, que as opções sejam tão limitadas, mesmo no primeiro turno; mas se existe alguma esperança, ela nascerá justamente deste calor das discussões que suscita o interesse pela política e, por extensão, afasta os krakens do Congresso que parasitam o dinheiro público sob o nariz do povo.
    A alternativa que nos resta é colocar na balança as diferenças entre os candidatos e seguir o provérbio "Dos males, o menor". Após fazê-lo, acabei por concluir que o menor dos males é, neste caso, votar 13 no segundo turno. Farei-o com um certo pesar, pois as circunstâncias não me deixaram escolha melhor. Vejamos.
    Eu, de todas as pessoas, tenho uma certa ojeriza em defender Dilma. É doloroso ver um partido que se diz "dos trabalhadores" fazer tantas alianças com setores elitistas e tomar decisões em detrimento do restante da população, além de ceder para os mandos e desmandos de bancadas evangélicas e ruralistas. Entretanto, em todos os assuntos dos quais o PT é acusado, pelo menos no que tange às acusações plausíveis, o PSDB é igualmente — se não mais — sujo. E não sou eu que estou dizendo isso; o ranking da Justiça Eleitoral está: o partido que mais teve políticos barrados pela Lei Ficha Limpa foi o PSDB, com 56, em contraponto ao PT, com 18.
    A manutenção do "poder pelo poder" com certeza é uma característica do PT, mas também do PSDB, do PMDB (principalmente), e de quase todos os outros partidos. Ideologias no Brasil são apenas fachada para angariar mais voto e, por consequência, mais poder. Exponho abaixo um trecho de um texto que escrevi em maio deste ano, O Brasil e sua putrefação política, no qual discorri sobre isso.

No Brasil, não há esquerda e nem direita. Até os partidos que já fizeram parte de fortes reivindicações sociais, hoje já perderam seu compromisso com a ideologia. Esta já não vale mais de nada; é facilmente comprada. O Ministro Joaquim Barbosa foi muito feliz em sua colocação quando disse que em nosso país há somente "partidos de mentirinha". O PT da época das greves sindicais do ABC Paulista se envergonharia caso visse a postura de alinhamento à Bancada Ruralista que o partido tomou na última década de governo. O mesmo vale para o PSDB, cujos líderes tiveram profundas raízes políticas com a UNE e com o MDB, e que hoje tem sua integridade reduzida a pó.
    Quanto ao monopólio do poder por um tempo prolongado, o mesmo se aplica. Os defensores de Aécio costumam argumentar, com uma certa razão, que, se Dilma vencer as eleições deste ano, ao final de seu mandato serão 16 anos de governo petista. Esquecem-se eles, porém, que com a recente eleição de Geraldo Alckmin para governador do estado de São Paulo, serão 24 anos de PSDB quando terminar seu mandato. Isso diz muito sobre o que o partido de Aécio realmente pensa da rotatividade do poder: "bom apenas quando nos convém". E aos que estão fora de São Paulo, digo-lhes com experiência própria que o resultado deste governo não é nada bom; quem é daqui conhece muito bem o lado deste governo que relega as escolas estaduais aos destroços, fica de braços cruzados frente à grave escassez de água, permite a falência da renomada Universidade de São Paulo (USP), dentre outras abominações administrativas.
    Aproveitando para falar sobre a experiência da população com os governantes do PSDB, é muito importante mencionar que Aécio não teve a maioria dos votos para a presidência nem mesmo no próprio estado de Minas Gerais, do qual foi governador, como você pode conferir no infográfico à direita. Chega a ser irônico, mas, antes, relevador. Se ele teve noventa e tantos porcento de aprovação após o mandato no governo estadual de Minas, como adora esbravejar nos debates, por que não venceu no próprio estado?
    Discutindo com um amigo, ele me mandou um infográfico dos votos internos de Minas Gerais, mostrando que Dilma obteve a maioria dos votos apenas nas majoritárias cidades ao norte. Para ele, isso serviria de base para o argumento de que "Dilma só venceu em Minas Gerais por conta da influência do Bolsa Família nas regiões mais pobres".
    Aqui, chegamos num ponto de crucial importância, porque boa parte da população conserva pensamentos desse tipo. É realmente muito fácil usar o pseudoargumento de que "Bolsa Família é para alimentar vagabundo" (?????) debaixo do ar condicionado, tendo as oportunidades que você teve, ao contrário de muitos. A título de conhecimento e de extirpação da ignorância, é fundamental saber que, só até 2013, o programa já retirou mais de 36 milhões de pessoas da miséria e entender a relevância disso. Não é "dar o peixe sem ensinar a pescar", é fornecer condições para que as pessoas se alimentem antes de ir pescar.
     E quanto ao argumento — baseado puramente em "achismos", vale salientar — de que programas sociais causam conformismo e fazem com que as pessoas não queiram trabalhar, é interessante evidenciar que ele acaba não se sustentando quando confrontado pelos fatos: só em 2011, cerca de 40% dos beneficiários do Bolsa Família já deixaram o programa por iniciativa própria.
    É claro que isso não torna o governo federal ou seus programas sociais isentos de críticas, mas estas últimas só serão válidas se forem no sentido de que, sozinhos, os programas são insuficientes para a promoção de uma verdadeira ascensão social e econômica, bem como para o fornecimento de uma melhor qualidade de vida. Do contrário, se você realmente acha que R$ 70 por filho é suficiente para causar conformismo e desestimular a busca por empregos com remunerações mais satisfatórias, você está profundamente iludido ou, pelo menos, deseja estar.
     Agora, voltando ao argumento de meu amigo, não sejamos levianos: é claro que o Bolsa Família teve alguma influência sobre os votos de quem optou por Dilma no primeiro turno no norte de Minas Gerais. Todavia, isso também significa que tudo o que Aécio diz ter feito pela população mineira é tão ínfimo que não compete nem mesmo com meros R$ 70 do programa social. E se apenas a região sul do estado o elegeu em maioria, isso também quer dizer que Áecio beneficiou mais esta porção de Minas do que o norte, historicamente conhecido pela carência e, naturalmente, pela necessidade de atenção governamental, a qual aparentemente foi negligenciada.
    Tratando-se de discrepâncias entre governos, tendo como grandes protagonistas FHC e Lula, não compete a mim discorrer. Primeiro porque não sou economista, historiador ou qualquer outra figura que tenha autoridade acadêmica para tal, especialmente tendo em vista a complexidade que envolve os diferentes períodos e conjunturas políticas destes, e segundo porque há quem o faça. Contudo, acrescentarei algo simples e importante à roda de discussões: as operações contra a corrupção.
    Apesar de todos os escândalos envolvendo o PT, como o famigerado "mensalão", é fato que as operações contra a corrupção só tiveram início efetivo no governo Lula. Segundo dados oficiais da Agência Senado, reunidos numa publicação de Stanley Burburinho, e do Instituto da Alvorada, houve, no governo de FHC, 48 operações e 200 prisões, contra as 1273 operações do governo Lula, acompanhadas de 15754 prisões. Os ingênuos ou os mal intencionados podem dizer que a diferença gritante entre os números se dá por conta do aumento da corrupção, mas é muito claro que o que aumentou foi, na realidade, os instrumentos contra ela. No governo Lula também foi criado o Portal da Trasparência, que rompeu com a cultura de sigilo estatal presente por séculos, e, no governo Dilma, a Lei 12529, também conhecida como Lei de Acesso à Informação.
    Ademais, a História nos ensina que as privatizações do PSDB são vetores de exorbitantes desvios de verba: entre 1996 e 2002, a Polícia Federal estima que R$ 124 bilhões foram desviados com a privataria tucana e que recuperamos somente R$ 2 milhões, o que totaliza aproximadamente 0,0016% do total. Além disso, todo o discurso liberal das privatizações vai para o ralo quando defrontado pela cristalização das oligarquias de poder aquisitivo no Brasil, os cartéis informais, suscitados pelas privatizações de FHC, o que vai violentamente contra o conceito de livre concorrência. E, se me permite o desabafo, não estou nada interessado em assistir as universidades públicas — que, em geral, são parte de um dos poucos serviços públicos de excelência — serem privatizadas.
    Reitero, novamente, que em absolutamente nenhum momento afirmo que o PT seja a solução para o Brasil. Ainda que os comerciais de campanha da eleição de Dilma retratem um país colorido onde tudo é perfeito, nossos olhos não nos deixam acreditar nessa ilusão leviana, diante de tanta ingerência por parte da União. Porém, esse ódio anti-petista é, na essência, um cabresto ideológico que ofusca as opções e, o mais importante, as consequências do voto.

A inerência dos deveres aos direitos

    Debates com temática de longa data, como a questão do anonimato, vêm sendo suscitados com o advento de novas tecnologias que desafiam os padrões éticos — e mesmo legais — vigentes. Exemplo disso é o aplicativo Secret, que possibilita a publicação de mensagens anônimas e, ignorando o princípio jurídico da identificação disposto no inciso IV do artigo 5º da Constituição Federal de 1988, isenta o usuário de qualquer responsabilidade sob a premissa de fomentar a liberdade de expressão.
    Exceto em raros casos em que o anonimato se faz estritamente necessário para garantir a segurança da pessoa em questão, ele tende a ofuscar o campo dos deveres e passar a errônea impressão de que é permitido um tipo de liberdade de expressão indiscriminado e inconsequente.
    O que os que defendem dogmaticamente veículos como o supracitado recusam-se a entender é que, num Estado de Direito, os direitos dos quais estão dotadas as pessoas são necessariamente acompanhados de deveres. A sua liberdade de expressão é válida, porém, esta não pode ultrapassar as liberdades individuais de terceiros, tais como a dignidade e a integridade, que são absolutamente invioláveis de acordo com cláusulas pétreas — e portanto imutáveis — constitucionais. A partir do momento em que alguém se dispõe a falar sobre alguma pessoa, este alguém está automaticamente vulnerável às consequências legais.
    Contudo, estão enganados também os que, em contraponto, argumentam a favor da aniquilação de tais sistemas virtuais por uma espécie de "mão-de-ferro", adaptando para a política o termo elaborado pelo economista Adam Smith. Uma repressão estatal é inútil, pois cobre apenas superficialmente o problema e não altera a estrutura basilar deste, que é a tacanha mentalidade popular. Em lugar desta solução ineficiente, cabe uma regularização de tais tecnologias, de modo que, mesmo com o anonimato entre usuários, existam mecanismos que permitam aos órgãos jurídicos competentes identificar, apurar, julgar e, se for o caso, punir legalmente os responsáveis pelo desrespeito à Constituição, cuja validade também se aplica à esfera virtual.
    Em concomitância, são bem-vindas medidas preventivas a fim de educar e conscientizar a população, difundindo a noção de responsabilidade perante a sociedade e perante a lei, além de promover o debate para modelar aos poucos o ideário popular visando a uma efetiva mobilização.

O problema da direita/esquerda no Brasil

    Seja nos fóruns de discussão, nos comentários das redes sociais ou nas opiniões dos assíduos leitores dos sites de notícias, dez minutos de leitura são suficientes para que qualquer um com um mínimo de clareza política se estresse.
    Ainda que a situação do Brasil se deva a um contínuo processo histórico de alienação da população — no sentido etimológico da palavra, de "tornar alguém alheio a algo" — e de uma desesperança política crônica causada pela falta de integridade e de transparência dos que elegemos, a maioria das pessoas continua insistindo em discutir com todo ímpeto questões puramente ideológicas. E pior: isso está quase sempre ligado a um maniqueísmo extremista e, por mais redundante que possa soar, burro. Ou é direita, ou é esquerda. Se é assim que os brasileiros enxergam, discutamos então sobre esses dois lados.
    A direita é conhecida de longa data por argumentar com teorias conspiratórias ("Golpe comunista de João Goulart!"), por radicalizar o discurso do adversário político para deslegitimá-lo e por ignorar as mazelas sociais atribuindo a elas um caráter imaginário, como se fossem "espantalhos da esquerda". Isso quando não fazem uso das falácias ad hominem, o que, convenhamos, requer menos esforço cognitivo do que elaborar argumentos válidos.
    Já a esquerda costuma enfiar os pés pelas mãos ao tampar os olhos para a precariedade política e isolar-se num mundo fantasia onde algumas medidas assistencialistas são suficientes para compensar toda a falta de estrutura e oportunidades que a população carente continua enfrentando. É importante lembrar, queira a esquerda ou não, que só porque um governo é supostamente "o mais popular da história nacional", isso não significa que este governo esteja automaticamente isento de críticas. Alianças com a bancada ruralista e a obediência às chantagens da bancada evangélica continuam existindo, e ressaltar estes fatos não faz ninguém "coxinha".
    Claro, falta ponderação. É em tempos como este que a ausência de difusão de informação grita: o brasileiro tem o péssimo hábito de jogar todo o encargo para a principal figura de seu Executivo, o presidente. No entanto, é importante lembrar que a administração dos recursos referentes à educação — com exceção das universidades — e à saúde pública, bem como de muitos outros setores fundamentais ao desenvolvimento da sociedade, compete à esfera Estadual ou à Municipal. É por esta razão, dentre muitas outras, que o dedo deve pesar com consciência em absolutamente todas as vezes que este tocar a urna, não somente para eleger os presidenciáveis.
     Parcialidade sempre irá existir, seja por simpatia a determinada ideologia ou algo do gênero. No entanto, não devemos cair no erro de usar verdadeiros cabrestos ideológicos. Além disso, uma discussão só pode ser promissora a partir do momento em que os participantes lembram que não são crianças e que deselegâncias gratuitas não ajudam em nada.
     A fórmula para a construção ideal de um modelo democrático reside no constante questionamento do status quo, na humildade em aceitar ou rejeitar ideias diferentes das suas — sob a luz do senso crítico e da ponderação — e na maturidade em levar uma discussão sem picuinhas desnecessárias.

Quem vai pagar a Copa

    Hoje inicia-se a Copa do Mundo de 2014, sediada no Brasil. Sim, Brasil, país no qual crianças e idosos morrem na fila do pronto-socorro; onde uma educação pública de qualidade chega a ser risível, de tão surreal; cuja população, especialmente a marginalizada, é deixada às mínguas e do qual a desesperança política já se apoderou há tempos. Entretanto, não gastemos mais tempo em discorrer sobre o panis et circenses ou sobre outros temas já percebidos por qualquer um que tenha uma dose mínima de lucidez. Falemos do que foge ao óbvio; no caso, por um viés mais econômico.

    Compete ao Governo fornecer todo o tipo de preparação para a Copa, seja ela direta ou indireta. Sendo assim, é evidente que a construção e a manutenção dos estádios, bem como de uma infraestrutura urbana que dê suporte à demanda turística, seja bancada com dinheiro proveniente dos cofres públicos.
    Aos que se permitirem a reflexão, causa grande estranheza a incoerência em financiar um evento privado com verba pública e, de modo contraditório, cobrar pelo acesso a ele um valor absurdo dos brasileiros, que já sustentam o evento pagando um dos maiores encargos tributários do mundo. É como se a natureza do evento fosse de uma duplicidade que depende da conveniência: público no que diz respeito a parasitar a máquina estatal, privado quando se trata de arrecadar lucros exorbitantes.
    Os simpáticos à Copa decerto cometem a ilusão de argumentar que o turismo decorrente dela compensa o prejuízo, pois traz benefícios. A pergunta é: benefícios a quem, exatamente? Além das aberrações jurídicas como os tão chamados tribunais de exceção que serão instalados nas proximidades dos estádios, com penas mais severas e julgamento sem ampla defesa[1], é garantido aos estádios e a outros eventos menores atrelados à FIFA o monopólio comercial num raio de 2km, o que não deixa de implicar em duas violações à Constituição Federal: primeiro em razão da privatização de uma área pública — tanto da rua quanto do estádio, que, lembremos, foi financiado com o dinheiro do povo — e, por extensão, o desrespeito ao artigo 5º, que assegura o direito de ir e vir; e em segundo lugar pela oligopolização, que não passa de uma espécie de cartel legitimado pelo próprio Estado.
     Portanto, os únicos verdadeiramente beneficiados são as grandes empresas parceiras da FIFA, com permissão comercial exclusiva nos arredores do evento. Quanto à suposta movimentação da economia gerada no restante das áreas, os comerciantes podem até faturar muito mais do que o convencional, mas estes preços recaem também sobre a gigante parcela da população que não tira o sustento do comércio, como funcionários públicos. No fim, o que sobra é uma concentração de renda ainda maior.
    Algumas vantagens estruturais podem até vir em decorrência da Copa, como o funcionamento do metrô de Salvador após 14 anos de atraso de obras ou melhoras quantitativas no meio rodoviário. No entanto, cabe ponderar que estas medidas só se deram devido à urgência de comportar a leva turística no país. A longo prazo, dificilmente será mantida a manutenção ou mesmo o uso de tais melhorias. O mesmo se aplica aos estádios que, embora fiquem "para a posterioridade", certamente não terão tanta utilidade como teriam, por exemplo, hospitais em zonas periféricas.
    Não se trata de ser contra o espírito futebolístico. Pelo contrário! É ser contra a comercialização do mesmo; é perceber o quão incabível é a restrição do acesso ao esporte, limitando-o às pessoas que podem pagar três salários mínimos para ter acesso a um ingresso.
    O problema não reside na Copa em si, mas em sua gestão. Seria interessante — e sobretudo coerente — se ela fosse sustentada pela iniciativa privada, sem o envolvimento direto de dinheiro público. Além de ser mais democrático por ter como financiadores apenas os que de alguma forma se interessam pelo evento, também evitaria os enormes desvios de verba, pois como diz a máxima popular, doeria no bolso dos grandes empresários.
    Em tempos de crise conjuntural, não podemos nos dar o luxo de aceitar o que nos impõem. É preciso questionar quanto e a quem custará um "olê, olê olê olá".

O Brasil e sua putrefação política

    Chutemos a etiqueta e a polidez para escanteio: brasileiro tem nojo de política. Sua animação em ano de eleição é a mesma de alguém que se casa pela vigésima vez após ter sido traído em seus dezenove matrimônios anteriores. As mesmas promessas vagas, o mesmo cinismo, o mesmo comprometimento que não tarda a cair por terra com impressionante efemeridade.
    Não se trata nem de uma questão partidária. No Brasil, não há esquerda e nem direita. Até os partidos que já fizeram parte de fortes reivindicações sociais, hoje já perderam seu compromisso com a ideologia. Esta já não vale mais de nada; é facilmente comprada. O Ministro Joaquim Barbosa foi muito feliz em sua colocação quando disse que em nosso país há somente "partidos de mentirinha". O PT da época das greves sindicais do ABC Paulista se envergonharia caso visse a postura de alinhamento à Bancada Ruralista que o partido tomou na última década de governo. O mesmo vale para o PSDB, cujos líderes tiveram profundas raízes políticas com a UNE e com o MDB, e que hoje tem sua integridade reduzida a pó. Essas duas menções são apenas a título de exemplo, mas a situação não é muito diferente para o restante dos partidos. Cabe aqui, portanto, o que Aristóteles cunhou como fronesis: saber distinguir com prudência o que diz respeito à ideologia, portanto à teoria, do que está relacionado à prática. É preciso que guiemos a discussão sob a luz desta última.

    Comecemos então pelo mais óbvio: a corrupção. Todas as esferas, desde a municipal até a federal, passando inclusive pelos três poderes, estão entupidas de parasitas do dinheiro público. Isto pode ser inferido não somente pela unanimidade popular como também por cinco segundos de reflexão. Como pode um país arrecadar aproximadamente R$ 55.000 por segundo[1] em impostos e ainda prover serviços públicos de tamanha precariedade? O retorno que a população recebe é ridículo. Para onde vai todo esse dinheiro? Evapora?
    Está presente nas entranhas da máquina estatal de nosso país uma versão monstruosamente ampliada do "jeitinho brasileiro de ser". Embora a essência seja justamente esta, a desonestidade aqui não reside em cortar filas; quando nos referimos ao cenário político, ela é estrutural. É tudo de uma torpeza crônica nauseante: lavagem de dinheiro, manobras eleitorais que não passam de uma nova espécie de coronelismo, nepotismo, concessões irregulares e imparciais, e assim por diante. Chega a ser difícil acreditar que os responsáveis pela conjuntura política consigam ser tão ignóbeis a ponto de, mesmo diante da podridão do sistema, deitar a cabeça no travesseiro e dormir de consciência limpa.
    Sem mencionar a descarada ironia presente em nosso Legislativo. Partidos têm a pachorra de se intitularem como Democratas (DEM) ou Partido Progressista (PP), estando estes ligados à ARENA do Regime Militar de 64. A pateticidade não para por aí: colocar um pastor abertamente homofóbico na Comissão dos Direitos Humanos equivale, em níveis de coerência, a permitir que Adolf Hitler presidisse uma Comissão de Defesa aos Judeus.
    Os grandes veículos midiáticos — denominados por muitos o Quarto Poder, tamanha a sua influência na sociedade — são, no melhor dos casos, cúmplices. A população não tem voz; quando tem, como foi o caso nas manifestações de junho de 2013, é completamente desarticulada. Não mantém objetivos claros e concretos; em vez de reunir-se em torno de uma proposição legal específica, como o PL 480/2007, foca-se em reivindicações tão genéricas quanto as promessas eleitorais. Cartazes com dizeres como "QUEREMOS EDUCAÇÃO" só hão de ser levados a sério pelos governantes se soubermos como e sobretudo de quem exigir.
    Ademais, a única coisa capaz de alimentar as esperanças de um povo deixado às minguas seria uma drástica reforma política. O voto compulsório, o mecanismo de aliança de candidatos (chapas eleitorais), os sistemas de representatividade verticais e indiretos, o financiamento empresarial a candidaturas, e muitos outros pontos precisariam ser revistos. Pautas como essas dão margem para muita discussão, e seria crucial para a consolidação de uma verdadeira democracia se os brasileiros pudessem tomar parte no assunto e sentir-se engajados com a política.
    Não é um presidente, um governador ou um deputado que vai diminuir o abismo que existe entre a população brasileira e a política, sobretudo da noite para o dia. Ainda há esperança, porém não num cenário carregado de estagnação e conformismo. Resultados frutíferos só ocorrerão se houver conscientização do cidadão brasileiro, no sentido de ser menos complacente com o status quo e exigir mudanças sérias.

Um sistema educacional em ruínas

    Que a educação brasileira não é grande coisa, todos já sabem. No entanto, o maior erro que devemos ter o cuidado de não cometer é tratar a questão de modo genérico, como se não houvesse mais esperanças e por isso fosse justificável uma análise superficial e conformada.
    É fato que o problema possui um enraizamento muito profundo, mas desvendá-lo e estudá-lo fica razoavelmente fácil quando são pontuados cada um os fatores que o desencadeiam.
    Ainda que eu esteja apto a discorrer apenas sobre o ensino público do Estado de São Paulo, em razão da meia década de experiência própria, não é completamente errôneo dizer que as considerações aqui feitas podem ser aplicadas ao restante do Brasil, uma vez que todos os sistemas escolares se integram, se não por um determinado padrão cultural, ao menos pelo fato de responderem ao mesmo órgão governamental, que é o Ministério da Educação.
    Comecemos pelo mais evidente. Existem dois problemas centrais quanto ao ensino público e, infelizmente, eles envolvem justamente os elementos mais cruciais de qualquer sistema educacional: o professor e o aluno. Está presente em ambos, pelo menos por linhas gerais, um desinteresse mórbido, tanto em aprender quanto em ensinar. E apesar da facilidade que isso implicaria, não faremos aqui como fazem os que se contentam apenas apontando o que está errado. Iremos mais adiante, de forma a entender a fundo por que está errado.
    Salvo significativas exceções, a maior parte dos professores da rede pública revela uma enorme falta de disposição em ensinar. Em primeiro lugar, porque seu conceito de "ensinar" não tem absolutamente nada a ver com real aprendizado. Cresci aprendendo que, mais importante que prestar atenção na aula, é copiar o conteúdo do quadro negro. Não foram raras as ocasiões em que o professor gastava todo o tempo da aula escrevendo na lousa e saía da sala sem ter dito uma sequer palavra sobre a matéria. "É preciso deixar registrado o conteúdo", diziam eles. Pois bem: hoje não tenho nem os cadernos (devem estar perdidos por algum canto empoeirado da casa) e nem o conhecimento que devia ter sido passado a mim. De que adiantou?
    E o segundo fator que de certo modo explica a má vontade do professor é a questão salarial. Não é novidade para ninguém, mas os professores brasileiros estão entre os mais mal pagos do mundo. Além da desmotivação natural presente em qualquer profissional mal pago, há de ser considerado que um mercado que não é valorizado também não estimula uma legítima seleção de profissionais capacitados, pois estes não se sentem atraídos pelo ingresso na carreira.
    Porém, é importante perceber que postular os problemas em relação aos professores não isenta o aluno de qualquer responsabilidade. Este participa do processo escolar em absolutamente quaisquer critérios de análise e, sendo assim, a incumbência de um sistema disfuncional é em grande parte sua. No entanto, é muito precioso ressaltar que seria de uma tremenda falta de ética textual analisar isto de forma simplista, afirmando que a antipatia dos estudantes pela escola tenha surgido do nada e sem qualquer razão aparente. Não. Com certeza existe algo por trás desta postura, e é justamente sobre isto que precisamos refletir.
    As escolas tradicionais, do modelo que conhecemos hoje, foram criadas por volta do século XIX, sob inspiração da já ascendente industrialização. Não por coincidência, o sistema educacional teve sempre como base a teoria de psicologia comportamental — de grande aplicação à lógica industrial — denominada Behaviorismo Clássico, segundo a qual os seres humanos seriam como "massinhas de modelar", sendo os trabalhadores portanto suscetíveis a uma padronização conveniente aos dominantes.

O cerne da educação brasileira (...) é fruto de uma imaturidade pedagógica sem tamanho. Tratam o aluno como criança e esperam que ele aja como adulto.
    Mesmo centenas de anos depois, ainda jazem inúmeros resquícios desta mentalidade na escola contemporânea, mesmo que despercebidos. O uniforme, o horário de entrada e saída, o enfileiramento e o aspecto hierárquico da instituição; tudo isto e muito mais provém do modus operandi industrial. Ao final, o aluno acaba invariavelmente sentindo-se e sendo tratado como um operário, e se vê como que obrigado a cumprir um regime semiaberto durante boa parte de sua vida. São ignorados o ritmo e a dificuldade de cada um e qualquer manifestação de sua personalidade (como roupas diferentes, por exemplo) é reprimida, fazendo com que o estudante abra mão de sua bela, porém imperfeita humanidade para se adequar aos moldes de um sistema que trata todos como computadores a serem programados.
    Como se já não fosse motivo suficiente para o estudante criar uma certa repulsa ao sistema educacional, existe ainda a inaplicabilidade do conteúdo escolar na vida cotidiana, o que configura a maior falha do ensino básico como um todo. Sob o ponto de vista de um aluno comum, quase toda a matéria que lhe é ensinada na escola é absolutamente abstrata e dissociada da realidade. É incabível cobrar que o conteúdo seja bem recebido ou sequer absorvido se, na mente do estudante, a matéria é completamente inútil em termos práticos. Em vez de aprender, ele na verdade decora o conteúdo, muitas vezes na véspera da prova, para esquecê-lo logo depois de conseguir a nota. O processo de "aprendizagem", com ênfase nas aspas, torna-se mecânico, desgastante e improdutivo. O resultado? Os professores fingem que ensinam, os alunos fingem que aprendem e, ao final do curso, estes últimos recebem um diploma que revela uma função equivalente à de uma máquina de xérox, pois foi a única coisa que fizeram durante todo o período escolar.
    É claro que o pouco investimento — e sobretudo o mau uso deste investimento — na educação possui uma parcela de culpa na defasagem do ensino, mas seu peso é muitas vezes superestimado. Apesar de o ensino privado possuir uma certa vantagem qualitativa, a disponibilidade de maior recursos é apenas motivo parcial para esta discrepante diferença em relação ao público. Após dois anos estudando numa escola particular, percebi que a metodologia de ensino dos professores é diferente. Em via de regra, a preocupação maior destes é transmitir a matéria conversando com os alunos, usando a oralidade como base e o material didático como apoio opcional, e não o contrário, como ocorria na escola pública.
     Contudo, faz-se necessário ratificar que mesmo as escolas privadas não fogem à regra quanto a vários tipos de mentalidade citados nos parágrafos anteriores, como na mecanização do aprendizado, na organização hierárquica ou na padronização em formato industrial.
    O cerne da educação brasileira, seja ela pública ou privada, é fruto de uma imaturidade pedagógica sem tamanho. Tratam o aluno como criança e esperam que ele aja como adulto. Isso por si só já diz muito. Além disso, os pedagogos que comandam as diretrizes do MEC insistem em priorizar problemas levianos — através de mecanismos engolfados em burocracia inútil — e mascarar a situação em vez de dar enfoque aos verdadeiros problemas que tanto causam os déficits de ensino.
    A educação pode até ser a esperança para o futuro do Brasil, mas para que isto aconteça é preciso muito mais que trancafiar crianças entre quatro paredes por mais de dez anos e esperar que elas magicamente criem interesse em aprender. Mudar o país por vias educacionais requer constantes críticas a um disciplinamento antigo e sobretudo ineficaz. Devem ser vistas como bem-vindas propostas novas e funcionais que, apesar da incerteza que elas podem carregar, abrem espaço para discussões de cunho progressista visando sempre ao benefício da própria sociedade. É necessário deixar a arrogância pedagógica de lado e admitir que as ruínas de um sistema falho estão cada vez mais à mostra.

Rachel Sheherazade e as polêmicas

    Em 2011, bombava nas redes sociais um vídeo do comentário jornalístico transmitido pela TV Tambaú, da Paraíba, no qual uma figura até então desconhecida "revelava algumas verdades sobre a fantasia do carnaval", como foi postulado. No vídeo, havia críticas ácidas à comercialização da festa popular, ao uso indevido do dinheiro dos cofres públicos e ao governo hipócrita que investe pesado em infraestrutura (ambulâncias e policiamento) no carnaval quando faltam os mesmos investimentos para a população carente.

    A repercussão serviu como degrau de ascensão da jornalista, que logo ganhou nome e uma cadeira na bancada do SBT Brasil. Desde então, Rachel Sheherazade tem dado o que falar com suas opiniões e sua maneira pseudo-onisciente de arrogá-las.
    Talvez uma de suas maiores polêmicas tenha sido o comentário sobre a ação do Ministério Público para a retirada da frase "Deus seja louvado" das cédulas de real. No entanto, como este é um assunto bastante delicado que dá margem para uma longa discussão, limitarei-me apenas às considerações mais pertinentes e deixarei o restante para outro texto.
    Na próxima segunda-feira, no dia 24 de fevereiro de 2014, completará exatamente 123 anos a Constituição de 1891. Esta, porém, não é uma Constituição qualquer. É especial, pois foi ela que oficializou de fato a transição do Brasil Monarquia para o Brasil República. E talvez um dos aspectos mais notórios disto foi algo indispensável a qualquer democracia genuína: a divisão entre Estado e Igreja.
    Esta postura secular assegurou aos cidadãos que o Governo seria imparcial, garantindo assim a liberdade religiosa da qual precisavam tanto todas as pessoas que não eram católicas. É claro que, após praticamente 400 anos de dominância da Igreja Católica Apostólica Romana, nossa cultura continuaria marcada por seus costumes e tradições. Os dias da semana, o calendário gregoriano, os feriados, datas comemorativas e a própria inscrição na cédula. Desta forma, a laicidade do Estado ficou, pelo menos em maior parte, na teoria.
    O problema, penso eu, não está em haver tradições. As tradições constroem uma espécie de identidade cultural importante a todo tipo de sociedade. O problema está, na verdade, em impor suas tradições a todas as pessoas. Você pode decorar sua casa com belas imagens de santos e santas, como fazem os católicos, ou abster-se de comer carne suína, como fazem os judeus; e assim por diante. O que você não pode é querer forçar, através da lei, que todas as demais pessoas partilhem de seus preceitos.
    Estado laico não busca negar a religião de ninguém; muito pelo contrário! Quando a laicidade é verdadeira, a liberdade religiosa de todos é respeitada. E vale lembrar que não estamos falando aqui de Israel, mas sim do Brasil; um país pluricultural onde a diversidade é — ou deveria ser — há muito tempo vista como parte da dinâmica populacional.
    Só em 2010, a parcela não-cristã da população chegava a 13%. Pode parecer pouco, mas isso implica em mais de 25 milhões de pessoas. E considerando que a frase "Deus seja louvado" é uma clara referência à entidade bíblica, por mais que isso não incomode particularmente a minha pessoa, a presença da frase no dinheiro nacional acaba sim com o princípio da neutralidade do Estado em relação às religiões. Os que dizem que este tipo de análise é "falta de louça para lavar" não diriam o mesmo se a frase inscrita fosse "Alá seja louvado". É falta de empatia, de por-se no lugar do próximo e de ver não somente o que te desrespeita, mas o que desrespeita o próximo. E pelo que bem me lembro, pensar no próximo é justamente um dos ensinamentos mais importantes de Jesus; ensinamento este que muita gente anda esquecendo.
    O curioso é que, meses depois, Sheherazade se revoltou com as vaias ao Pastor Marco Feliciano e, em defesa ao líder religioso, argumentou que o Estado é laico e que "um homem não pode ser condenado por suas crenças, nem discriminado por causa delas". Defende que o pastor não possa ser vaiado por suas opiniões discriminatórias, mas não liga se o mesmo pastor em questão tentar aplicar tais opiniões no Congresso, impondo seus valores a todos os brasileiros, inclusive aos 25 milhões que não possuem as mesmas crenças que ele. Chega a ser estranho que a imparcialidade religiosa do Estado é defendida por Sheherazade apenas quando lhe convém.
    Mais engraçado ainda é que, no mesmo vídeo, Rachel insiste piamente na liberdade de expressão do pastor, mas não dá a mínima para a dos manifestantes. Do mesmo modo, fala em tolerância. Entretanto, a única "intolerância" com qual a jornalista parece importar-se é a das vaias; mas a intolerância de Marco Feliciano não parece ser problema. Aí pode. Para mim, isto não passa de dissonância cognitiva transvestida de discurso progressista fajuto.
    Um pastor pode sim expressar suas opiniões. É só não tentar forçar suas crenças goela abaixo da população por meio de intervenções legislativas, como Marco Feliciano faz. Além disso, vale pontuar que pastor nenhum está acima da lei. Suas pregações são asseguradas pela Constituição, sim, mas também estão sujeitas às mesmas regras de respeito à dignidade humana. Críticas se fazem não só bem-vindas como também necessárias.
    Fora isso, outro caso recente que provocou muito rebuliço nas redes sociais foi a declaração de Sheherazade do uso de uma suposta "legítima defesa coletiva" como justificativa para pessoas que fizeram justiça com as próprias mãos ao amarrar, despir e dar pauladas no "marginalzinho do poste", como ficou conhecido o adolescente suspeito de roubos.
    O comentário jornalístico teve duras consequências. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro chegou a divulgar uma nota de repúdio a Rachel Sheherazade e a indicar graves violações ao Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. A confusão foi tanta que a própria Rachel teve de retratar-se ao vivo, esclarecendo que é "uma pessoa do bem" e que é contra a barbárie.
    Quanto a este tema em específico, creio que caiba uma análise mais cuidadosa. As opiniões gerais em relação a tal declaração me preocupam muito, pois o que tenho visto é um maniqueísmo muito grande. De um lado, estão os que a apoiam completamente e de outro os que a demonizam. É preciso questionar sim; no entanto, é preciso cautela para não discordar de tudo cegamente.
    Rachel diz que o Estado é omisso, a Polícia desmoralizada e a Justiça falha. "O que resta ao cidadão de bem?", pergunta ela. Com efeito, esta é uma questão que não só pode como deve ser levantada. Até que o Governo recobre sua legitimidade cumprindo verdadeiramente seu papel para com a população, é natural que a as pessoas partam para medidas desesperadas. As truculências vistas nos noticiários ultimamente não são outra coisa senão reflexo destas medidas, já que a população não encontra outra saída para o problema. Não que as barbáries sejam aceitáveis ou corretas dum ponto de vista legal ("legítima defesa coletiva" é uma ova), mas se foi isto que Sheherazade quis dizer — sobre a falta de alternativas — quando alegou que os atos dos vingadores foi até compreensível, então concordo com ela neste ponto. Errado, abominável, mas compreensível.
    Porém, minha concordância com a jornalista se encerra aí. Ela continua: "E para o pessoal dos direitos humanos, eu lanço uma campanha: adote um bandido". Talvez fosse melhor pensar um pouco antes de sair por aí vomitando noções limitadas ao senso comum. Não somos nós quem devemos adotar os bandidos, e sim o Estado, promovendo oportunidades e fornecendo educação de qualidade. Quando não o faz, quem adota o bandido é o próprio crime. É como comentei no meu texto sobre a redução da maioridade penal: a própria necessidade de roubar — desencadeada pela falta de condições e de oportunidades dignas — coloca na cabeça destes indivíduos que o mundo é seu inimigo e se encarrega de ensiná-los como se virar. E fazendo uso da mesma moeda que a própria Rachel usou: recorrer ao crime para sobreviver é errado, mas é compreensível.
    Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam negrinhas no areal, por vezes feriam com navalhas ou punhal homens e polícias. Mas, no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo é que não tinham casa, nem pai, nem mãe, a vida deles era uma vida sem ter comida certa e dormindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem tudo aquilo morreriam de fome, porque eram raras as casas que davam de comer a um, de vestir a outro. E nem toda a cidade poderia dar a todos. Pirulito pensou que todos estavam condenados ao inferno. (...)
    Depois explicaram a Pirulito que Deus era a suprema bondade, a suprema justiça. E Pirulito envolveu seu amor a Deus numa capa de temor a Deus e agora vivia entre os dois sentimentos. Sua vida era uma vida desgraçada de menino abandonado e por isso tinha que ser uma vida de pecado, de furtos quase diários, de mentiras nas portas das casas ricas. Por isso na beleza do dia Pirulito mira o céu com os olhos crescidos de medo e pede perdão a Deus tão bom (mas não tão justo também...) pelos seus pecados e os dos Capitães da Areia. Mesmo porque eles não tinham culpa. A culpa era da vida...
Capitães da Areia (AMADO, Jorge)
Rachel insiste piamente na liberdade de expressão do pastor, mas não dá a mínima para a dos manifestantes.
— Não sejamos uma Sheherazade! Se há liberdade de expressão para um, que haja para todos!
    Por fim, é fundamental ter em mente que o progresso não poderá ser atingido através de demonizações — como se absolutamente todas as declarações da jornalista não prestassem, ignorando, por exemplo, sua crítica aos pastores que lucram às custas de seus fiéis ou seu elogio à banda Legião Urbana.
    Além disso, por mais reacionárias que sejam as opiniões de Sheherazade, ela tem todo o direito de compartilhá-las. Tomo a liberdade para ser clichê e citar Voltaire: "Posso não concordar com nenhuma das palavras que você disser, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las". Querer calar a oposição é sinal de fraqueza e, como cheguei a dizer em outro texto, não precisamos de mais uma ditadura manchando a história do nosso país.

A Previdência Social além dos números

O texto a seguir foi redigido com base na proposta de redação da FUVEST 2014, baseada em avaliar a posição do ministro de finanças do Japão, Taro Aso, de que "os idosos deveriam apressar-se a morrer". As opiniões atribuídas ao referido político japonês (...) são tão raras ou isoladas quanto podem parecer? O que as motiva? O que elas dizem sobre as sociedades contemporâneas? Opiniões desse teor seriam possíveis no contexto brasileiro? Como as jovens gerações encaram os idosos?
Confira a proposta completa e o texto disponibilizado na coletânea clicando aqui.

    O século XXI caracteriza-se, na melhor das hipóteses, como um período controverso. Se, de um lado, ele trouxe consigo uma importante onda de valorização dos direitos humanos, com a introdução de diversos assuntos nunca antes vistos na pauta de discussões, de outro, tem crescido também uma quantificação excessiva de tudo e de todos, na qual nada escapa à insensível conversão para valores monetários, ignorando toda a essência humana e reduzindo-a a meros números a fim de estatística e contabilidade.
    A declaração de Taro Aso, Ministro de Finanças do Japão, acerca do tema é nada senão o reflexo desta quantificação excessiva, aplicada à Previdência Social. Esta problemática, que diz respeito à dificuldade em atingir um equilíbrio financeiro entre a PEA (População Economicamente Ativa) e os idosos que necessitam dos recursos do Estado, é um dos principais desafios que praticamente todos os governos atuais são obrigados a enfrentar diante da perigosa forma que as pirâmides etárias não só poderão como vão adquirir, tornando-se, desta vez, uma questão inadiável.
    No que tange o Brasil, é preciso pontuar que embora a Previdência Social exista desde o começo do século XX, o assunto só ganhou mais enfoque quando se deram modificações e implementações significativas na década de 1930, com Vargas, em 1960, com Jânio Quadros e posteriormente no Governo FHC, já no final do século. Atualmente, tem-se visto um progresso inegável na área, afinal, pouco mais de 10% do PIB brasileiro é destinado a fins previdenciários. Ainda assim, os impasses são grandes: discute-se muito sobre qual seria a medida adequada no que diz respeito à inclusão da Previdência Privada, sobre o princípio da equivalência urbana/rural que, embora previsto pela Constituição, não se aplica na prática, e especialmente sobre o tão chamado fator previdenciário, que define o valor do benefício.
    Apesar destes empecilhos que divergem as opiniões, vale ressaltar a "janela demográfica" que o Brasil receberá, assim como alguns outros países, estimadamente nas cinco primeiras décadas do milênio. O termo se trata de um fenômeno geográfico bastante famigerado, no qual a população ativa no mercado ultrapassa a inativa. A oportunidade é rara e seria muito contraproducente desperdiçá-la com políticas banais que negligenciam a Previdência. É preciso aproveitar a dádiva demográfica de forma inteligente para que, a longo prazo, seja possível preparar o Brasil para o envelhecimento de sua população.
    A brutal frieza na fala de Aso, por si só, já diz muito. Transparece não só a visão que ele próprio tem dos idosos, como algo nada além de "estorvos", mas também o pensamento incutido nos jovens de grande parte das culturas, de que a população com idade mais avançada é tão inútil e facilmente descartável quanto um saco de batatas.
    Por maior que seja a necessidade de lidar com a questão a níveis macroeconômicos, é preciso, antes, ter como prioridade a qualidade de vida das pessoas. A postulação do Ministro japonês além de ser grotesca não faz o menor sentido, uma vez que atribui uma importância maior à economia do que à população, sendo que a primeira existe em função da segunda, e não o contrário. Os projetos econômicos têm de possuir sempre uma natureza humanitária, para assim não perder seu propósito. De nada adianta haver uma economia sustentável com superávits e poupança interna crescentes se a população é tratada como meros números sistemáticos e facilmente contornáveis.

O machismo nosso de cada dia

    Se quiser ser respeitada, mulher tem que dar-se ao respeito. Certo? Não. Não está certo porque respeito não é negociável. Antes de homens ou mulheres, somos pessoas. Nossos direitos não são condicionais. A afirmação de que "Fulana só deve ser respeitada se..." está errada. Fulana é humana, portanto deve ser respeitada. Ponto.
    Muitos que estão lendo isto agora podem estar pensando com seus botões que machismo não existe e que isso "é coisa que gente cri cri inventa para vitimizar o gênero feminino". Neste caso, preciso respirar fundo e contar até dez.
    Você já parou para analisar de onde provêm as palavras de baixo calão — os tão chamados palavrões — e o que elas supõem? Para os homens, viado, boiola, bicha, baitola, mulherzinha. Notou algum padrão? São só alguns exemplos, mas assim como estes, a esmagadora maioria das outras ofensas aos homens se baseiam em "ser mulher", pressupondo automaticamente que isto é algo negativo. Na outra ponta, você não vê uma mulher sendo ofendida de homenzinho, porque este aparentemente não é um atributo negativo.
    As ofensas para as mulheres vão mais além. Puta, vadia, vaca, cadela, piranha etc. Quando as expressões são imperativas, vai se foder, vai tomar no cu. Todas estas expressões se sustentam em atribuir uma imagem de pessoa promíscua, corrompida, sexualmente ativa; imagem esta intrínseca às funções sexuais femininas. Até quando o alvo não são necessariamente as mulheres, são elas as atacadas, como em filho(a) da puta. Novamente, é muito improvável ouvir alguém usando filho(a) do puto como xingamento, simplesmente porque ter vida sexualmente ativa para nós homens é motivo de orgulho, não de vergonha. Mesmo para o inglês, a observação é válida. Bitch, slut, cunt, skank e whore são alguns exemplos que dizem respeito às mulheres e faggot, pussy e queer aos homens.
    Ao contrário do que alguns podem inferir, esta análise linguística não é meramente questão de ser politicamente correto. Não é de forma alguma algo insignificante. Pelo contrário. Sendo a língua o principal método de comunicação humana, nela estão esculpidos os paradigmas mais profundos da sociedade. Afirmar o contrário é admitir uma falta de percepção sem tamanho.
    Para contestar que os termos usados não só possuem uma forte conexão com a mentalidade popular como também a refletem, ilustremos aqui uma situação não muito incomum. Imagine que sua filha, seja ela real ou fictícia, esteja interessada em sair com um amigo. Amigo do qual você nunca ouviu falar. Como um bom pai ou mãe, você ouve a conversa de telefone dos dois por trás da porta e subentende que estão planejando ter a primeira relação sexual de suas vidas. Por mais óbvia que seja a pergunta, hei de fazê-la: você daria a ela total liberdade?
    Responda-me agora a mesma pergunta, com o pequeno detalhe de que desta vez é seu filho. Ele pedindo ou não permissão, você o impediria de ter relacionar-se sexualmente com uma amiga? Certamente que a resposta foi diferente.
    "Mas homem é diferente!", posso ouvir alguns reacionários em seu mini-ataque de descontentamento. Claro que é diferente; isso eu já sei. No entanto, ouso questionar: por que é diferente? "Porque é preciso proteger as mulheres." Concordo. Mas proteger do quê? Por que, para uma mulher, ter relações sexuais é visto como algo ruim que deve ser evitado?
    Perceba que o problema aqui não é necessariamente a ideia de que sexo corrompe, o que aumentaria drasticamente o escopo da discussão e envolveria variáveis religiosas que dizem respeito ao ideal ascético. O foco da crítica gira, na verdade, em torno da limitação destas regras somente ao sexo feminino. Por que quando uma mulher tem uma vida sexualmente ativa é "entregar-se à pecaminosidade carnal" e quando um homem faz o mesmo é perfeitamente aceitável?

“Respeito não é negociável. Nossos direitos não são condicionais. Fulana é humana, portanto deve ser respeitada. Ponto.
    Talvez por ser uma das premissas do movimento, este tipo de linha de raciocínio torna inevitável falarmos do feminismo. Confesso que, de início, eu próprio era contrário ao feminismo. Convenhamos: o nome soa controverso. A impressão que ele passa, embora errônea, é a do feminismo como postura inversa do machismo. Porém, algumas poucas leituras foram-me suficientes para o esclarecimento de que na realidade o nome desta linha de pensamento que prega a superioridade das mulheres sobre os homens é femismo, sem o "ni". Feminismo, por outro lado, refere-se a igualdade e nada mais.
    Você não precisa abandonar seus valores, por mais retrógrados que sejam. É preciso apenas que você utilize os mesmos critérios para ambos os sexos. Se for para demonizar o sexo, que seja para ambos os gêneros, e não só para as mulheres. Se for para encarar como algo natural que, sendo consensual, não faz mal a ninguém, o mesmo se aplica.
     Se você acha que as mulheres, tais como os homens, devem ter direito de vestir-se como bem entenderem, desde uma minissaia até uma burca; que elas devem ter controle sobre o próprio corpo sem pessoas alheias dando palpites agressivos; que possa haver sim uma divisão de tarefas em casa, não reservando tudo apenas para a mulher; e que mulher não é um objeto, parabéns, você é feminista.
    Cabe pontuar algo que muitos se esquecem: quando se trata de igualdade, é preciso ver os dois lados da moeda. O feminismo genuíno não apoia "privilégios" (as aspas estão aí para evitar possíveis aberturas de discussões) femininos, como a diferenciação na obrigatoriedade do alistamento militar ou a entrada grátis em determinados eventos. Não se trata da falácia do verdadeiro escocês, e sim de coerência: um movimento que prega a igualdade automaticamente se desvia de seus princípios caso seja a favor de tratamentos desiguais, sejam eles benéficos ou não.
    Quanto ao aprofundamento da análise linguística no qual algumas pessoas são bastante chegadas, vejo alguns questionamentos como válidos e outros, nem tanto. A generalização automática para o masculino, por exemplo, merece um espaço na pauta de discussões, afinal dez meninas serão chamadas de "os meninos" se houver mesmo apenas um menino ali e isto poderia ser facilmente resolvido trocando por "as meninas e o menino". Entretanto, flexibilizações forçadas e deselegantes, aceitas ou não pela língua portuguesa, como presidenta passam dos limites do bom senso. Não vejo estudanta e representantas por aí.
     Em relação às pessoas que para contradizer o feminismo recorrem ao lamentável episódio que trouxe a Marcha das Vadias à tona nos noticiários, fico em dúvida se a falta de lógica se baseia na desinformação ou simplesmente na má vontade de entender. Usar eventos isolados e minoritários para deslegitimar todo um movimento justo tal como o feminismo é incabível. O grupo da Marcha das Vadias, mais especificamente aquele grupo que realizou a manifestação de profundo mal gosto, não representa toda a militância.
    Apesar de todas estas considerações, vale enfatizar que o título não foi pensado ao acaso. "O machismo nosso de cada dia" porque mesmo tendo consciência de tudo o que foi discorrido, todos nós manifestamos em forma e grau específicos um certo machismo, ainda que não seja proposital. Não é da noite para o dia que conseguiremos extirpar as intolerâncias da sociedade. Colocar-se no lugar do próximo requer esforço, porém, além de ser possível, é necessário. Não é natural ou sequer minimamente admissível que praticamente metade da população do planeta (as mulheres) se sinta excluída de alguma forma.

As cotas e o Dr. MEC

    Pouco mais de um ano atrás, escrevi sobre as cotas. Contudo, sinto que além de ter faltado propostas concretas para solucionar o problema, não levantei algumas questões indubitavelmente essenciais à discussão. Devo confessar também que, diferente de antes, me questionei muito a respeito e cheguei a mudar de ideia diversas vezes. E creio ser importante dizer que ainda assim minha opinião está sujeita a mudanças. Afinal, que sentido faria debater sobre uma determinada temática se as pessoas não estiverem dispostas a refletir e, eventualmente, aceitar ideias diversas?
    Bom, hei de insistir em alguns pontos bastante cruciais que já abordei no outro texto. Comecemos por talvez o principal deles, que é o esclarecimento da questão que as pessoas mais costumam confundir: se existe desigualdade, seja no que tange a etnia dos candidatos ou a condição financeira, a universidade não é a causadora desta desigualdade, e sim a vítima. Isso porque o vestibular é um dos pouquíssimos sistemas no Brasil que são baseados, em sua essência, na mais pura meritocracia. A prova não contém um campo "etnia" a ser preenchido, muito menos um intitulado como "renda familiar". Pode existir, no máximo, questionários socioeconômicos com finalidade puramente estatística, mas estes dados jamais influenciam na nota final do estudante. O vestibular está interessado somente e tão somente em testar as habilidades relacionadas à educação — seja o raciocínio, a chamada bagagem de conhecimento e coisas do gênero.
    Perceba, entretanto, que não enfatizei a parte "em sua essência" à toa. O motivo parece um tanto quanto óbvio, mas é necessário dar a ele um destaque especial na pauta de discussão. A educação, justamente a suposta encarregada de preparar o aluno para os exames vestibulares, não é tão democrática quando deveria ser. Com algumas poucas exceções, o ensino público brasileiro é extremamente deficitário em vários quesitos e, conforme as tristes estatísticas nos mostram, não tem condição de competir com o ensino privado. Cria-se assim, ainda que indiretamente, uma aniquilação da verdadeira meritocracia, fazendo competir pessoas cujas oportunidades foram completamente desiguais.
    Diante desse triste cenário, chega a ser absurdo o fato de que o Ministério da Educação (MEC), em vez de se empenhar genuinamente para melhorar a situação deplorável do ensino público no país, prefira ignorar a realidade e buscar resultados rápidos por meio de deturpações pitorescas a um dos únicos sistemas que de fato trabalham por meio da mais legítima democracia, o vestibular. Se as condições escolares são desiguais, é justamente isso que precisa ser revisto, e não os sistemas avaliativos. Além de esta postura ser injusta inclusive com os próprios cotistas — afinal, como cidadãos, eles também merecem uma educação de qualidade —, é de uma estupidez sem tamanho, pois a medida visa a resultados imediatistas e de curto alcance, prova de que o Governo está se lixando para mudanças permanentes e de longo prazo.
    Tomando a liberdade para metaforizar, seria como um doutor (chamado, por mera coincidência, de Dr. MEC) que, em vez de sugerir a seu paciente enfermo um tratamento longo e difícil — porém eficiente —, simplesmente adulterasse o exame e o fornecesse um diagnóstico que indicasse ao paciente perfeita saúde. O doente sairia muito feliz do hospital, com certeza, mas seria justo? Cabe questionar, ainda, os motivos que realmente levaram o Dr. MEC a fazer isso. Será que é por conta desta medida ser muito mais fácil e barata, ou será que a verdadeira intenção não seria aumentar as estatísticas de pacientes saudáveis do hospital? São só suposições, claro, mas eu particularmente apostaria minhas fichas em ambas as opções.

Se as condições escolares são desiguais, é justamente isso que precisa ser revisto, e não os sistemas avaliativos.
    Quando se trata da questão educacional, tenhamos em mente que ela é emergencial e que soluções vagas ou mágicas não suprem o problema. O ensino público no Brasil demanda propostas sólidas, realistas e acima de tudo criativas. Quanto a isso, por que não aproveitar a qualidade do ensino privado e aplicar medidas afirmativas justamente aí? Criar e fazer vigorar uma lei que determine, por exemplo, que 20% das vagas das escolas particulares sejam contempladas com bolsa integral seria uma boa pedida. No que diz respeito às pessoas que precisam de ajuda imediata, o mesmo também se aplicaria aos cursinhos preparatórios. É claro que os 20% são meramente especulativos; seria necessário, antes, um estudo maior para determinar até que ponto as medidas não são abusivas. E são bem-vindas propostas de reduzir os altos impostos que são cobrados dos colégios particulares, a fim de tornar as medidas afirmativas ainda mais viáveis.
(...) É injusto com os próprios cotistas — afinal, como cidadãos, eles também merecem uma educação de qualidade.
    Vale ressaltar, no entanto, que ainda assim soluções como esta precisam ser temporárias, para que não haja conformismo governamental e para que não cessem as cobranças por melhorias, como acontece atualmente com as cotas. E mesmo enquanto esta suposta lei de bolsas integrais estiver vigorando, o pensamento a longo prazo é indispensável: é necessário haver investimento constante e pesado na educação pública, não somente no que tange à verba governamental, mas principalmente em reformas administrativas. É preciso que os professores sejam melhor pagos — pois deste modo irá ocorrer uma real valorização desta profissão e a própria concorrência se encarregará de selecionar profissionais cada vez mais capacitados —, que a estrutura hierárquica seja renovada, que a burocracia do sistema pare de impedir inovações e que os alunos sejam, de fato, ouvidos.
    Uma outra proposta que, apesar de ousada, é bastante interessante seria com certeza o PL 480/2007 que, como consta na íntegra, "determina a obrigatoriedade de os agentes públicos eleitos matricularem seus filhos e demais dependentes em escolas públicas". O projeto diz por si só. Os que são contra, tais como o senador Anibal Diniz (PT), argumentam que fere o livre arbítrio previsto pela Constituição e que a proposta "possui um quê de autoritarismo", e, numa análise superficial, talvez não estejam tão errados. Todavia, ninguém é obrigado a possuir um cargo público. Se a pessoa em questão se propôs a governar e, por extensão, ser fator determinante do sistema público, nada mais justo que ela dependa do sistema que ela própria constrói. Não é uma imposição, e sim uma condição óbvia para exercer o cargo, da mesma forma que um presidente é obrigado a viver em seu próprio país. Condição esta que apenas assegura a coerência: se os governantes estiverem verdadeiramente empenhados em melhorar o ensino público, não têm o que temer. Um político colocar seu filho numa escola privada me soa como uma profunda hipocrisia.
    Quanto às cotas raciais, torno a afirmar que são incabíveis. Não porque não existe discriminação, pois existe, mas porque ela não é parte do mecanismo de seleção dos vestibulares. Os negros, por exemplo, deixam de entrar nas universidades não porque são negros, e sim por fazerem parte de um grupo financeiramente marginalizado na sociedade, sendo assim dependentes, em grande parte, do ensino público. Deste modo, se acabarmos com o déficit da educação pública do país com as propostas já discutidas nos parágrafos acima, estaremos automaticamente combatendo de modo implacável a desigualdade racial.
    No entanto, o assunto não é tão simples a ponto de acabar aí. O buraco é mais embaixo. É importante lembrar que diploma não é sinônimo de emprego, especialmente no que diz respeito às profissões cujos responsáveis por empregar pessoas são os selecionadores. O vestibular pode até trabalhar pelas vias mais limpas de meritocracia, mas as entrevistas de emprego não. Não existe prova concreta, mas uma rápida olhada nos dados e um tiquinho de raciocínio são o bastante para nos fazer enxergar a triste realidade: a cor da pele infelizmente influencia sim a escolha ou não de um determinado candidato à vaga de emprego. É justamente  que cabem ações governamentais tais como as cotas, e não no exame de seleção para as universidades.
    Por fim, espero ter deixado bem claro que, embora minha posição antiga em relação às cotas universitárias não tenha se alterado, houve uma postura de maior preocupação com problemas sociais e uma reflexão realista acerca de soluções a respeito. Em suma, é possível concluir que medidas afirmativas são bem-vindas, mas precisam ser aplicadas no lugar correto e de maneira prudente. O uso das cotas como propaganda eleitoral — assim como temos visto ultimamente — é absolutamente inaceitável, e o tratamento delas como se fossem a solução definitiva para os diversos tipos de desigualdade, mais ainda.

Humor às avessas

    Uma coisa é fato: o humor que vemos hoje e o de algumas décadas atrás são extremamente distintos. O atual perdeu quase completamente aquele espírito de Os Trapalhões, de Mazzaropi. Com exceção de um ou outro programa como Zorra Total, é ácido e um tanto quanto controverso.
    Talvez um dos principais motivos que fazem com que o assunto divida tanto as opiniões seja o fato de que as comédias que mais fazem sucesso, em especial as do tipo stand-up, adquiriram uma natureza que vai além do caricato tradicional a personagens fictícias. Agora, elas trabalham de modo a atacar pessoas reais de uma maneira particularmente agressiva, baseando a acidez da crítica humorística, na maioria das vezes, a características como etnia, porte físico, orientação sexual, nacionalidade — e até regionalidade, como é o caso das piadas de gaúchos e nordestinos — e assim por diante.
    A explicação, segundo Idelber Avelar, um conceituado professor de literatura1, é que "a piada preconceituosa se ancora em determinados valores solidificados na sociedade". Ele completa, ainda, que este é o humor fácil, pois estas ideias já estão montadas na mentalidade popular.
    O mais assustador, porém, é que este tipo de humor faz sucesso. Isso porque, como diz Laerte, ele [o humor] "dialoga com o preconceito das pessoas". Inclusive, muitos veem nas piadas uma bela oportunidade para mascarar pensamentos grotescamente desumanos, na tentativa de fazer com que eles pareçam naturais. A infeliz fala de Rafinha Bastos de que "o estupro às mulheres feias não deveria ser encarado como crime, e sim como um favor", por exemplo, exterioriza a ideia que, sinto dizer, uma considerável parcela da sociedade brasileira possui. Além de não ser sequer engraçado.
    Chega a ser patética a performance de algumas pessoas que, na busca incessante de fazer comédia custe o que custar, atropelam o bom senso e ignoram até mesmo a mínima dignidade humana. Um claro exemplo disto é a Marcela Leal que, com seu "humor", ridicularizaria até mesmo a própria avó se isso arrancasse algumas risadas constrangidas da plateia.

    Não estou propondo impor limites severos aos artistas que trabalham neste segmento. Isto seria pura censura, e não precisamos de mais uma ditadura manchando a história da democracia brasileira. A liberdade de expressão é importante — e como é! No entanto, isso não significa que as pessoas devam ter carta-branca para humilhar e discriminar livremente umas às outras. Você pode muito bem, por exemplo, ter a opinião de que os negros são inferiores aos brancos. Você tem todo o direito de ser um grande babaca. O que você não pode, porém, é disseminar suas ideias arcaicas como se isso fosse correto, sem arcar com as consequências. Seus direitos acabam quando começam os do próximo.
    Alguns podem contra-argumentar dizendo que é preciso combater não as piadas, e sim as realidades que estão por trás delas. Ora! Essa dissociação não se justifica, pois estas duas coisas não são distintas em nível algum! Pelo contrário: as palavras (no caso, as usadas para fazer humor) são justamente a maneira que a discriminação encontra para se propagar. Portanto, qual a maneira de lutar contra esta discriminação se não pela crítica às palavras?
    Outro ponto a ser esclarecido é que a comédia sempre — sempre — se apresentará em forma de crítica. Não é este o problema. O problema é o que ela critica. Ela, sendo uma forma de arte, desempenha um papel fundamental na formação e divulgação de ideias. Embora sutil e muitas vezes subestimado, é bastante poderoso o potencial que os humoristas possuem. Criar um humor que não atende sua função social seria subvertê-lo, fazendo com que ele se torne, deste modo, um humor às avessas. Num cenário político no qual há tanta coisa errada para ser satirizada e depreciada, o bom senso não permite que haja espaço para piadas de mau gosto sobre o bebê de Wanessa Camargo. Pelo menos não sem as devidas represálias.
    Cabe dizer ainda que, se o humor pode disseminar paradigmas sociais, também pode quebrá-los. É claro que não é uma tarefa fácil. Se criar humor inteligente já exige criatividade, tratar questões sociais de forma leve e engraçada exige ainda mais. Não é uma questão de ser politicamente correto, nem de mero moralismo, e sim de mobilidade social, de empatia. Fazendo uma analogia ao belíssimo poema Intertexto de Bertold Brecht: importe-se com os outros antes que seja tarde.
    Para finalizar, é essencial destacar que para tudo há limites. O humor não se foge à regra. Se existe liberdade para um comediante fazer seu trabalho, também deve haver liberdade para a repreensão. As coisas não funcionam numa via de mão única. Caso um humorista se meta a falar a respeito de alguém ou de determinado grupo de pessoas, seja da maneira que for, ele está automaticamente sujeito à reação do coletivo e, sobretudo, a uma possível resposta judicial. Não aceitar isto seria colocar a profissão de humorista num pedestal e endeusá-la. Afinal, até onde eu sei, nenhum humorista está acima da lei.