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O ontem de amanhã

    Observo uma foto envelhecida de um teórico russo qualquer. A foto é inteiramente constituída de tinta preta, desbotada pelos anos e pela tecnologia limitada do começo do século XX. Seja pela distância temporal que nos separa ou mesmo pelo aspecto impassível, quase impessoal, ele sequer parece humano. E então, olhando o passado de cima para baixo, constato uma verdade óbvia, camuflada nas causalidades e na arrogância de quem se vê "na ponta da história": um dia estarei em seu lugar. Não tardará para que um jovem, habitante de uma realidade que tomará lugar em cem, duzentos anos, olhe minhas fotografias com esta mesma estranheza. "Como eram ingênuos os que viviam no século XXI, que se achavam detentores de uma tecnologia de ponta. Que pessoas diferentes! Eram elas dotadas dos mesmos sentimentos que eu? Como elas concebiam o mundo, senão de forma limitada?"
    E mesmo esses, que me parecem tão ofuscados pela nuvem do inimaginável quanto eu próprio o era para o russo que observei há pouco, decerto um dia parecerão empoeirados, cegos pelo cabresto de seu próprio tempo. Sequer humanos.
    Quanta humanidade já não habitou e habitará este planeta, em sua intensidade e calor plenos? Quantas sensações não foram enterradas com os anos, incapazes de serem retratadas nas fotografias e pinturas? Pois mesmo por meio das mais densas artes, como a escrita, não é possível aprisionar uma pessoa e reservá-la à eternidade. Nos dissolvemos a todo instante. Em pouco tempo, o que restará de nós serão nossas inscrições no mundo, cada qual responsável por registrar apenas uma face de nossas tantas faces. Talvez seja daí que os humanos retirem essa gana de produzir o diverso: música, filosofia, arquitetura, literatura — tudo isso não passa de uma forma refinada de lutar contra a morte, mesmo que em vida. Uma tentativa incessante, tão profunda e desesperadamente humana, de resistir. De existir.

Escape


    Chega um certo momento em que a mente, tumultuada e ansiosa, só consegue ser exprimida em termos poéticos. Mas o que será de nós, reles mortais, que sabemos fazer poesia tão bem quanto andar de monociclo? Tentar, e recair no ridículo? Pois ainda que ninguém se importasse, nosso próprio julgamento será sempre o mais forte. Estamos então fadados ao silêncio? Ao afogamento de si em si? Sucumbiremos ao tédio, deixando que o ócio nos consuma por dentro?
    Já não sei. Um fluxo que extravasa não encontra limites, motivo ou solução. Um fluxo que escapa à compreensão até de si mesmo está irremediavelmente prometido ao descaso da multidão. Mas que pode nos oferecer a multidão, senão uma repressiva vigilância ou um solitário silêncio, como um Estado que pune mas não ajuda? Talvez a ausência seja mesmo mais cruel que a presença, pois não há com quem gritar; não há a quem culpar senão a nós próprios.
    Mas isso tudo é tolice. Pensar demais é a receita perfeita para o bloqueio. Uma estagnação sem precedentes que se nutre da enorme leva de pensamentos e possibilidades, sem real previsão de concretude. O tempo escapa aos dedos e a capacidade se dissolve em nossas próprias inseguranças. A disposição, encarregada de nos fazer levantar, foge quando é chamada. Debaixo do cobertor é sempre melhor; parece o esconderijo perfeito, onde nem o frio e nem o peso das expectativas nos encontram. Pena não ser possível escaparmos de nós mesmos.

Amarras

    Recentemente, criei um miniblog chamado Fluxo, cuja proposta é a de expor meus textos menos comprometidos com a racionalidade crua, mais afeitos a formas artísticas de escrita e principalmente mais pessoais. No entanto, após escrever um pouco lá, fui acometido pela percepção de meus motivos implícitos. Pense comigo: se tive a necessidade de separar aqueles textos dos que costumo postar aqui no Meu mundo, minhas palavras, significa que, por algum motivo, não me sentia confortável em escrever em meu blog principal textos que não fossem estritamente lógicos ou formais. Com efeito, a tendência que fui criando sem perceber foi a de uma certa impessoalização deste espaço, quase furtando-lhe de si mesmo. É bem verdade que já há alguns anos venho postando esporadicamente prosas poéticas aqui, mas devo admitir que considero todas elas muito mornas e tímidas, quase como se estivessem constrangidas pela possibilidade de não serem compreendidas pelo público. Talvez por isso, ou mesmo talvez pela falta de maturidade textual, meus escritos mais antigos sejam tão carregados de uma roupagem de pretensa formalidade. Não falo de uma formalidade como a que permeia estas palavras de agora, que se dão mais como um verniz espontâneo do que como uma obrigação prática, mas uma formalidade que amordaça, que aprisiona.
    Este é, portanto, o primeiro passo para fora das grades que acabo de romper. Isso não significa que os próximos textos serão todos de ordem pessoal e descontraída, necessariamente; significa, justamente ao contrário, que tentarei evitar padrões textuais que enclausurem minha liberdade de escrita. Não pretendo tampouco interromper o Fluxo; continuarei alimentando-o com ideias que venham a surgir de minhas constantes tempestades mentais; porém, este blog principal também será palco eventual para esses pensamentos, sobretudo os que tiverem uma coesão semelhante a monólogos. Daqui em diante, não me pautarei por uma inércia que por tanto tempo me calou.

2015

    Mais ou menos por essa época do ano, tendo já feito as provas de vestibular, lembro-me de ter dito à minha mãe que, em um ano, minha vida seria radicalmente diferente ou radicalmente igual. Se isto era inspirador ou terrivelmente assustador, pouco importa, pois em qualquer um dos casos eu havia colocado sobre mim uma pressão que todo vestibulando carrega nos ombros um dia ou outro. Pois bem: aqui estou eu, em 2015, e fico aliviado em dizer que minha "profecia de boteco" se concretizou. Minha vida virou de ponta cabeça, e mais: da forma mais positiva que eu poderia em sã consciência imaginar.

     Não me entendam mal: meus amigos da cidade natal eram e continuam sendo pessoas maravilhosas, sobretudo alguns que conto no dedo e levo comigo até hoje, mesmo que por meio de reencontros. O abraço caloroso da Katita, que parece dizer sempre que vai ficar tudo bem; o sorriso e o bom humor inabaláveis da Marielle; as noites de tentativas culinárias (nem sempre desastrosas) com o Léo e com o Vinícius; as memórias de mais de 8 anos que este último tira do baú vez ou outra; as risadas da Marcela, que me levam junto e que com isso me fazem doer o estômago de tanto rir; as perguntas aparentemente incabíveis, mas certamente cômicas do Nicolas; os momentos de cumplicidade cinéfila que sempre partilhei com a Aline; e as longas horas de conversa que tenho com a Ingrid, não apenas minha irmã, mas também uma grande amiga. A lista continua, envolvendo também professores, que além de mestres se tornaram amigos muito prezados, e várias outras pessoas que tive a sorte de conhecer.
    E quando achei que não fosse haver mais dedos para contar os amigos do peito, me mudei para Curitiba e obtive assim a confirmação de que sempre cabe mais um. Tive a oportunidade de me aproximar de pessoas sem as quais — e digo isto sem exagero algum, lhes garanto — minha existência não faria mais tanto sentido. Não consigo imaginar minhas manhãs sem o jeitinho meigo da Camilla, com as coisas engraçadas que diz e que me dão cãibra nos lábios quando não consigo parar de rir; sem as perninhas espoletas da Bela, sua personalidade como uma das mais maduras que já conheci e suas opiniões sempre tão firmes e autênticas; sem as confidências mais profundas com a Gabi e os perrengues que passamos juntos; sem pavês deliciosos e vídeos de gatos da Yara, que dá os abraços mais reconfortantes de todos; sem o inconfundível jeito Isa de ser, tão Áries e tão doce ao mesmo tempo, e sem sua companhia para as noites sozinhas; e sem as palavras e gestos de apoio da Pat, que sempre — absolutamente sempre — está ali quando mais precisamos.
    Novamente, meus dedos já doem só de pensar em digitar todos os outros nomes que sustentam as minhas bases nessa nova vida, pois são realmente muitos. Porém, ainda que a custo de tornar o texto ainda mais piegas, farei essa concessão ao espírito de fim de ano e prolongarei aqui a lista. Jamais poderia deixar de citar, por exemplo, todos os seres excepcionais do Grupo Paulo Leminski (de escrita literária), com especial destaque à Bela (sim, são várias Belas em minha vida, e eu não poderia ser mais grato por isso), com as horas pós almoço que estendemos para conversar, sempre me ensinando muito a respeito da vida e do Direito; ao Fernando, sem o qual eu não teria tido forças para terminar o meu primeiro livro e para começar agora em dezembro o meu segundo; ao Juliano, com nossas infindáveis discussões ideológicas e ontológicas; ao Gapski, que é sem dúvidas a pessoa mais paz e amor daquela faculdade e a quem agradeço por namorar a Dafheny, pois assim pude conhecer uma das pessoas mais iluminadas com quem me deparei até hoje.
    Não nego: alguns nomes não me dei ao trabalho de mencionar por realmente não ir com a cara destas pessoas (e, se for o seu caso, creio que não será nenhum mistério). Do contrário, certamente não foi por esquecimento, e sim por, naturalmente, não haver espaço hábil. Outra parte, ainda, simplesmente preferi deixar de fora pois se tratam de pessoas que se sentiriam enojadas com uma dedicação tão melodramática, como o Igor ou o Guilherme, que provavelmente nem estão lendo isto.
    De qualquer forma, apesar do que foi dito, é claro que nem tudo são flores. Sair de casa e construir uma vida do zero, numa cidade nova e sem conhecer quase ninguém no início é um baque e tanto. É cair de paraquedas na vida adulta e perceber que a adolescência já passou e que está na hora de andar com as próprias pernas. O conforto de casa e o carinho próximo da família se esvaem junto com a própria certeza de que durante as noites você terá um lugar para cair morto. Mas tudo se ajeita, eventualmente. A família damos um jeito de visitar vez ou outra, sobretudo nas férias, e de conversar ao telefone quando possível. Enquanto isso, vamos construindo a nossa própria, com os amigos que escolhemos a dedo e que, muitas vezes também distantes de suas cidades de origem, assim como nós, encontram aconchego nos almoços de domingo, nas manhãs tediosas e nas noites onde festejam a embriaguez e as cantorias no karaokê do subsolo da faculdade.

Controle

    Às vezes eu gostaria que houvesse em mim um interruptor. Poderia, assim, permanecer acordado, pelo menos até quando eu próprio dispusesse do contrário. Estou farto de ter um súbito refluxo de inspiração em plena madrugada, quando as energias já me traem e os olhos ardentes me cobram as horas mal dormidas. Situação inversa também acontece com uma frequência inconveniente: não são poucos os dias em que me vejo amigo da disposição, por vezes de forma tão intensa que eu não conseguiria pregar os olhos nem se assim quisesse, mas que não me iluminam nem mesmo lampejos de inspiração. Meu cérebro parece ter assumido como função primeira a de sacanear minhas vontades sempre que possível, e, até onde pude constatar, tem sido bem sucedido nisso.
    Existe uma enorme gama de remédios dos quais eu poderia fazer uso para resolver esta questão, estou certo disto. Se estou disposto a pegar atalhos para obter este tão desejado controle sobre meu próprio corpo? Bem, a que custo? Criar voluntariamente uma dependência com a indústria farmacêutica, que lucra com as enfermidades alheias, e depois tornar-me escravo desta própria decisão inicial? E, além disso, abdicar de alguns anos de vida e, por que não, de uma considerável dose de sanidade? Não, obrigado. Como pode ver, o interruptor existe, mas não é um bom negócio.
     Talvez seja tolice minha, afinal. Pensamento bobo de quem cresceu acreditando em livre arbítrio, lendo filósofos existencialistas porém humanistas, e de quem de repente se deparou com a verdade de que não somos e não estamos livres nem de nós mesmos — somos eternos prisioneiros de nossas próprias limitações. Certamente fui utópico se um dia pensei que seria capaz de dizer à mente teimosa que horas devo dormir, que horas devo permanecer acordado, ou mesmo convencê-la de que de nada adianta sofrer pelo que vão pensar. Muito pouco se aproveita deste tipo de conversa consigo próprio; dessa tentativa constante de convencermos a nós mesmos das verdades que queremos construir. No máximo, nasce um ou outro texto de fluxo de consciência, destes que em pouco tempo serão empoeirados e que ao cabo têm pouca ou nenhuma utilidade, e mais uma madrugada tentando ouvir o barulho da chuva lá fora em lugar dos próprios pensamentos.

Sim, eu sou gay

    É provável que o título deste texto tenha chocado algumas pessoas, a princípio. Sim, porque muito embora seja de amplo conhecimento de todos que de alguma forma fazem parte de minha vida em Curitiba, nunca cheguei a dizer nada "oficialmente" nas redes sociais. Mas, tendo começado uma nova vida, e tendo decidido a partir de então que não viveria mais sob máscaras, já está na hora de discorrer sobre isso publicamente.
    Confesso que não é fácil escrever esse texto. Não por ter algum problema em falar sobre isso — pelo contrário, gosto quando as pessoas quebram o tabu e se interessam, perguntam —, mas por ser algo tão íntimo que é, como costumamos dizer no Grupo Paulo Leminski, uma verdadeira nudez literária. Sim, este é um tema universal que, ainda bem, está em alta nos últimos anos, mas é também um assunto extremamente pessoal e é inevitável sentir-me no ápice de minha vulnerabilidade quando exponho algo tão... meu ao público. Escrever estas palavras me soa como uma curiosa mescla entre a reafirmação da força própria que há em me manter em pé enquanto o mundo tenta me derrubar e, ao mesmo tempo, um marco após o qual estarei vulnerável ao que as pessoas irão pensar. Mas se a preocupação do pensamento alheio nos impedisse de fazer algo, seria melhor termos ficado na barriga de nossas mães. Sinto que é preciso agora dar a cara a tapa e afirmar-me enquanto gay, sem o medo que me assolou por tantos anos durante a adolescência.
    É quase como alguém que se esconde numa caverna por muitos anos e, quando dela sai, estranha a luz do dia. Pode parecer um exemplo um pouco dramático, mas é aquilo: o problema do outro é sempre drama, até você sentir na pele. A alteridade requer um certo esforço. É algo que geralmente as pessoas não conseguem conceber; principalmente as que nunca precisaram esconder algo intrínseco a si mesmo até das pessoas mais próximas. É um constante sentimento de que você está fazendo — e, mais importante: sendo — algo errado, moralmente reprovável, mesmo não tendo escolhido aquilo. Viver um segredo é carregar nos ombros um peso que só piora a cada dia.

    Felizmente, ainda em Limeira, tive amigos maravilhosos, tanto reais quanto virtuais, que ajudaram a diminuir esse peso durante minha adolescência. É diferente quando você percebe que não está sozinho, e que as pessoas estão ali para te aceitar e sobretudo para te ajudar a aceitar a si mesmo. Um pouco depois, tive ainda uma família incrível que me apoiou incondicionalmente. Ainda que, partindo de alguns, tenha sido um apoio silencioso que evitou o assunto ao máximo, vejo isso não tanto como um tabu que nos impede de discutir coisas importantes (embora, em grande parte, tenha inevitavelmente sido o caso), mas também e principalmente como respeito ao tempo que eu achasse necessário para sentir-me confortável em me abrir com eles.
    Em Curitiba, então, não há o que se falar: me assumi desde o primeiro dia de aula e faço questão de não me esconder para ninguém. Absolutamente todas as pessoas que fazem parte de meu convívio me aceitam melhor do que eu poderia um dia imaginar e, inclusive, nunca fizeram qualquer distinção quanto a isso. Tenho amigos indizivelmente maravilhosos e até mesmo os que são "apenas conhecidos" me respeitam de uma maneira que eu não conseguiria descrever aqui em palavras. Até agora, não senti discriminação sequer uma vez, pelo menos não direta. É claro que isso provavelmente se dá por eu i) estar numa capital, onde a mentalidade popular via de regra é mais progressista, ii) estar no meio acadêmico, que, conforme um querido amigo e professor do ensino médio costumava dizer, é uma verdadeira "bolha" e, finalmente, iii) fazer parte de determinados grupos sociais com reconhecidos privilégios, sendo homem, branco e de classe média.
     Contudo, não se engane o leitor: nem todos têm a sorte de passar pelas mesmas circunstâncias "leves" de aceitação que eu. Uma rápida olhada em qualquer portal de notícias basta para ver que a maior parte das histórias de pessoas que se descobrem gays terminam com rejeição familiar, espancamento parental, expulsão do lar e, muito frequentemente, suicídio. Os termos podem parecer brandos, mas as condições às quais estas pessoas são submetidas não o são.
     Os tempos são outros e a situação está mudando para melhor, sim. A comunidade LGBT está adquirindo seus direitos civis aos poucos, a mídia está dando visibilidade (sem os frequentes estereótipos satirizados) a essas questões e, sim, a aceitação é mais frequente do que era há algumas décadas. As novas gerações já não repetem mais as mesmas baboseiras de séculos passados e são, como acredito, a esperança para um futuro mais tolerante. No entanto, e este é um enorme "no entanto", isso não significa em momento algum que esteja tudo a mil maravilhas. Simplesmente por amarem pessoas de mesmo sexo ou por possuírem gênero diferente do biológico, pessoas ainda são brutalmente assassinadas. Perceba que a questão não é apenas meramente estatística, como alguns podem argumentar ("Ah, mas pessoas de todas as orientações sexuais morrem todos os dias"), mas que suas vidas estão sendo ceifadas exclusivamente pelo fato de serem LGBT. Milhares de pessoas que gostam de Nutella morrem todos os dias, claro, mas elas não são assassinadas porque gostam de Nutella. É um exemplo bobo, eu sei, mas didático.
*Quando os palavrões não fazem uma associação direta com a comunidade LGBT, acabam fazendo-o com as mulheres. A discriminação linguística tem como padrão, em maior ou menor grau, o ataque ao papel "feminino" na relação, justamente porque a homofobia é um braço do machismo. É exatamente por isso que as temáticas "diversidade sexual" e "gênero" são tão intrinsecamente ligadas.
    E não é nem preciso ir nestes extremos da tragédia para perceber como há coisas a serem mudadas: só por serem ou amarem diferente, as pessoas continuam sendo sistematicamente excluídas e viram motivo de piada em todos os ambientes sociais, seja na escola, no trabalho, ou até mesmo em casa. "É só uma brincadeira." Nunca é só uma brincadeira. É preciso muita ingenuidade ou, como é a maior parte dos casos, muita desonestidade intelectual, para achar que são apenas palavras inofensivas sem nenhuma influência em quem as pronuncia ou as escuta. Quase a totalidade das palavras de baixo calão que usamos possui, em seu significado, o intento de diminuir ou ridicularizar o alvo associando-o à homossexualidade. Pense, neste exato momento, em um palavrão qualquer. Viado, baitola, boiola, bixinha, mulherzinha, vai tomar no cu, vai se foder e assim por diante.* Quando você cresce ouvindo e reproduzindo que você, enquanto gay, é a pior coisa que se pode imaginar na sociedade, é natural que o processo de aceitação seja doloroso; tão doloroso, por vezes, que muitos acabam buscando a própria morte. Apesar de todas as evoluções institucionais que temos visto, ser gay continua sendo um xingamento. O adolescente que descobre que tem desejos, tanto amorosos quanto sexuais, por pessoas de mesmo sexo, por exemplo, não tem de esconder só das pessoas ao seu redor, mas até de si mesmo: ele próprio se vê como uma verdadeira vergonha.
    É aí que passa a importar a parte em que eu disse, em parágrafos anteriores, que não senti discriminação direta. Ainda que hoje eu tenha me aceitado completamente e seja respeitado numa plenitude impressionante por todos que me rodeiam, é impossível não me sentir agredido indiretamente. Deveria ser óbvio, mas aparentemente não é: violência não é apenas física. Homofobia não é apenas bater em pessoas por sua orientação sexual; cada vez que alguém vai nos comentários do amigo e comenta "que gay", reforça a ideia já fortíssima de que ser gay é algo ruim, digno de vergonha. Por isso há tamanha importância em afirmar-se como gay e ter orgulho disso; não como maneira de "achar-se melhor que os outros", como pregam páginas ridículas como "Orgulho de ser hétero" ou "Orgulho de ser branco", mas como reafirmação da própria existência. É gritar aos quatro ventos: "Sim, eu sou gay! Por que isso seria um problema?" É por esses motivos que todos nós podemos e devemos fazer um tiquinho de esforço para repensar o que usamos como ofensa, pois uma mera palavrinha pode estar carregada de sangue. Sangue do seu filho, sangue do seu melhor amigo, sangue do seu colega de trabalho. Sangue humano.

— NOTA —
Já esgotei aqui o limite razoável de linhas de um texto para o grande público, mas há muito mais a ser dito. Felizmente, não faltará oportunidades: pretendo escrever aqui em meu blog, com a frequência que o tempo livre me permitir, muitos outros textos explicando, por exemplo, por que as pessoas descobrem-se gays (e não "optam", já que não é uma escolha), ou como a homossexualidade não só é natural, como também foi encontrada em mais de 1500 animais. A lista de assuntos é imensa, e vai desde coisas mais simples, como a diferença entre orientação sexual (hétero, homo, bi) e identidade de gênero (cisgênero, transgênero etc.) até questões mais complexas como a influência genética na formação da sexualidade. Mas até lá preciso estudar mais a fundo esses assuntos antes de discorrer com sobre eles com propriedade. Enquanto isso, deixo aqui um pedido: é muito importante que absolutamente todas as pessoas que são ou desejam ser pais assistam o filme Orações para Bobby. O filme é disponibilizado completo, em HD e em português no Youtube, e tem pouco mais que 120 minutos. É uma história baseada em fatos reais e, embora seja triste, é essencial para entender o sofrimento pelo qual passam os jovens que se descobrem homossexuais e não são aceitos pela própria família.

O tempo é nosso melhor amigo

    Numa dessas tantas bad vibes de noites chuvosas e músicas tristes, estive relendo alguns de meus escritos. O que alguns chamariam de narcisismo literário, eu chamo de introspecção textual. É a maneira que encontrei, já há alguns anos, de mergulhar em mim mesmo. Tempo, olhos, silêncio, insônia: estranhamente, essas são as temáticas mais recorrentes em meus textos líricos. Apesar de tantas coisas na vida não fazerem sentido, creio que esta não seja uma delas; a repetição de tais assuntos devem decerto dizer algo sobre mim. Investiguei as profundezas ocêanicas de minha mente e me propus a escrever mais a fundo sobre os devaneios poéticos pelos quais me arrisco ocasionalmente. Não é uma promessa aos poucos leitores que dão a mínima para o que aqui exponho, que fique claro; porém, se tudo der certo, e se eu dispor de um punhado de tempo livre em meio a tantas leituras jurídicas e acadêmicas, versarei sobre cada um desses temas citados. Este texto em questão, como confio que o leitor tenha concluído pelo título, tratará do tempo.
    O tempo é muitas coisas. É, primeiramente, engraçado, no sentido curioso e inusitado de sê-lo. Há exatamente um ano atrás, minha vida era outra. A cidade mudou, as amizade mudaram, as preocupações mudaram. Eu mudei. Se antes eu me esforçava para colocar a ênclise onde ela coubesse, hoje luto contra o juridiquês que já começou a impregnar meu estilo textual. Esse é apenas um exemplo banal, mas o fato é que somos verdadeiras metamorfoses ambulantes. Entre muitas oscilações, minhas ideias evoluíram significativamente, se é que se pode sequer entendê-las por uma ótica de progressão linear; de qualquer forma, em poucos meses aprendi e amadureci como jamais poderia ter imaginado. O tempo é irremediavelmente transformador, queiramos nós ou não.
    Tão irônico quanto se pode ser, o tempo debocha da teimosa mania do ser humano de arrogar para si uma tendenciosa previsibilidade e, só para divertir-se com a nossa confusão, mete os pés pelas mãos. Quando olhamos para trás, o tal ditado "o mundo dá voltas" parece ser verídico em todos os aspectos possíveis. Simplesmente não há previsibilidade. O amanhã é tão incerto quanto o clima de Curitiba. Justamente por isso, o tempo também pode ser deveras cruel. Ele tira as pessoas das nossas vidas e, às vezes, não precisa nem ceifá-las no intento de fazê-lo; elas se afastam tanto, pelos mais variados motivos, que, em pouco tempo, passam a ser desconhecidas.
    É difícil avaliar se o tempo afasta as pessoas por fazer com que as elas mudem ou se, no fundo, ele apenas revela como elas realmente são. Sim, porque o tempo e a verdade são amigos de infância: uma hora ou outra vão acabar encontrando-se. Eis a minha frase preferida: verita filia temporis. A verdade é filha do tempo. Queira o leitor, porém, perdoar-me pela brevidade deste parágrafo; por mais aprazível que seja discorrer sobre o quão franco o tempo é, não me estenderei muito nisso pois já o fiz em outra ocasião, num texto do ano passado.

    Ademais, o tempo não deixa de ser relativo. Não no aspecto da física de Einstein ou coisa do gênero; não estou me referindo precisamente ao tempo exato, indicado pelos relógios. Falo a respeito do tempo sentido pelos homens, um tempo que está mais ligado à percepção humana do que ao próprio conceito de tempo estático em si. O tempo psicológico que, com sua perpétua fluidez, brinca com o modo com o qual compreendemos a vida. Travesso, o tempo faz com que os cinco últimos meses pareçam-me mais longos e mais vivos que os últimos cinco anos, distantes e apagados pela memória.
(...) As coisas que perdemos sempre acabam encontrando um caminho de volta no fim, ainda que não seja da maneira que esperemos."
— Luna Lovegood
em Harry Potter e a Ordem da Fênix
    Se não nos fecharmos a ele, o tempo pode ser um ótimo professor e também o melhor remédio. Pode curar nossas feridas, por mais profundas que elas aparentem ser, e as cicatrizes que delas surgem são verdadeiros troféus a serem carregados. Claro: é preciso ter cautela para que a resistência ao sofrimento não nos torne insensíveis e frios, mas fortes e resilientes. Se usado de modo adequado, o tempo pode ser uma poderosa vacina contra infortúnios futuros. Um amigo, que, por sinal, é uma das pessoas mais fortes que já conheci até hoje, disse em uma certa tarde que gosta de encarar a fatalidades da vida não como algo que nos anestesie, tornando-nos inertes e indiferentes, mas calejados. Também aprecio muito essa maneira de conceber o tempo, especialmente por ver nessa acepção uma verdade que sempre se revela a longo prazo. Seja qual for o problema, o melhor conselho que posso dar ao leitor, bem como a mim mesmo, é: dê tempo ao tempo. O tempo é nosso melhor amigo. Confie nele e tudo há de ajeitar-se, ainda que à sua própria maneira. Pode parecer papo vazio de autoajuda, mas não o é: existe algo muito especial que o tempo guarda neste "à sua própria maneira". Trata-se de aceitarmos com humildade que o tempo age por caminhos que fogem à nossa pretensão de previsibilidade e compreendermos que mesmo a pior das tempestades alguma hora acaba, deixando, em lugar de um céu cinzento, um improvável arco-íris.

Pra não dizer que não falei das flores

    Tomo a liberdade de pegar emprestado este grito de guerra (ou, melhor dizendo, de paz) de outro contexto e de outros tempos para encabeçar este texto, que nada tem a ver com o Regime Militar de 64. Hoje, é justamente disso que eu não quero falar. É que, às vezes, a gente se cansa. O martelinho de juiz de Facebook fica muito pesado, e já não se tem mais vontade de dar murro em ponta de faca. As tentativas de diálogo são abafadas pela gritaria ensurdecedora, na qual só se ouve argumento muito mal construído. A sensatez é morta a pauladas, quando tudo o que resta é apelo emocional. O critério de (des)qualificação dos argumentos passou a ser a pessoa que os profere, e o despreparo intelectual se revela na medida em que discutir política se torna ataque pessoal. Se é isso que se entende por "normal", digam-me onde fica o hospício mais próximo que é para lá que eu vou.
    Não. Não serei partícipe deste concurso de monólogos. Fiz um acordo comigo mesmo de soltar somente as palavras que já não cabem mais na garganta, as que me escapam em situações em que o silêncio não pode com a hipocrisia e com a ignorância, e algo urge ser dito. De resto, entendi que é preferível resguardar minhas posições não tão consolidadas até que elas adquiram uma solidez maior. E não é nem uma questão de apatia política, de abdicação de responsabilidade social. Trata-se apenas de não dar passos maiores que minhas pernas.
    É decerto positivo o debate intenso sobre questões relevantes, em lugar do mero confinamento da opinião popular a assuntos futebolísticos, por exemplo; no entanto, eu, particularmente, optarei por não mais me envolver de corpo e alma em debates políticos, cheios de tantas ideias vazias que mal passaram por processos de digestão crítica, porque, ao que tenho visto, os resultados basicamente se resumem às rugas que surgem do estresse infrutífero. Nesse meio tempo, enquanto o mundo não está preparado para mim, e eu tampouco para ele, estarei por aí, propondo-me a refletir sobre a natureza das coisas belas e universais. Ao meio de tanto concreto cinza, inflexível e pesado... falarei das flores, que nascem tímidas no canto da calçada.

Insônia

    Na escola, aprendi sistema ambulacral dos equinodermos e desvio padrão. Não me ensinaram nada sobre esse negócio de sentimentos. Se ensinaram, devo ter perdido essa aula. Nunca fui preparado para o dia em que a paixão viesse assim, como um soco no estômago ou, se preferir, um tapa na cara. Repentina, sem sentido, dolorosa. Que palhaçada é essa de ficar bobo, sem saber o que fazer? Você nem percebe; quando se dá conta, já está com a pessoa na cabeça o dia todo e, como uma amiga costuma bem dizer, fica refém desta pessoa. Perder o controle: é isso. Não gosto. Gosto de manter o pé no chão, saber como lidar. A ataraxia que um dia tive, a impertubabilidade epicurista da alma, foi furtada de mim numa solapada. Me sinto vulnerável, e isso é aterorrizante.
    A apaixonite te arrasta para um abismo de extremos. Ou você está muito feliz ou muito triste. Se culpa o tempo todo por bobagem; detalhes com peso de palito de dente parecem âncoras aos seus olhos. Muito desgaste emocional. Você constrói, sem querer, uma imagem mental da pessoa (que às vezes não tem nada a ver com a pessoa de fato) e, ainda que deteste Platão, fica tecendo no mundo das ideias um futuro que provavelmente nunca terá.
    As noites de frio fazem você notar e sentir um vazio, uma solidão, que antes não estavam ali, e que agora precisam ser preenchidos. Uma noite ou duas sem pregar os olhos; quando muito, mal dormidas. Parece cocaína, como já dizia Renato Soviético. Você não consegue entender o que sente, e, quando tenta, se vê como um idiota. Sim, a razão também lhe foi roubada. Não é capaz sequer de escrever um texto uniforme; usa primeira e depois terceira pessoa, numa bagunça só, tal como sua mente.
    Onde aperta pra parar? Pra começo de conversa, não pedi isso. Quando vim ao mundo, não assinei meu nome em lugar nenhum. Carimbo do pézinho não conta. Precisa rever isso aí; achar uns culpados, pedir indenização por uns danos morais. Não nasci pra isso. Não, não, não. Me recuso. Agora, a única saída é usar toda essa tempestade mental como combustível literário; pelo jeito, essa é a minha sina. E também a de todos os outros que um dia cometeram o deslize de permitir-se ser humano.

Do vestibular à universidade:
Sete dicas

    Parece que foi ontem: pintei as letras do alfabeto, uma de cada cor, no caderno de brochura; passei então para as operações, tomando o cuidado de não misturar a casa das unidades com a casa das dezenas; veio, com o tempo, os números negativos, as frações e, quando me dei conta, o Teorema de Laplace, que mais parecia obra das trevas.
    Dos dezoito anos vividos até agora, foram quatorze de preparação para esse momento. Finalmente chegou o dia em que todo o esforço deu frutos. Quando vi meu nome na lista de aprovados do curso de Direito da Universidade Federal do Paraná, tudo — absolutamente tudo — valeu a pena. Digo isso pois não foi fácil. Vestibulando leva uma rotina complicada e a angústia causada pela incerteza só piora a situação. Pensando nisso, decidi escrever este texto, a fim de aproveitar que a experiência está fresca e, assim, ajudar com algumas dicas os que estiverem sentindo na pele o que eu senti durante todos esses anos.

ESCOLA
Tudo passa, até a uva escola passa

    Se você ainda está no ensino básico (fundamental ou médio), provavelmente não está tendo uma experiência agradável durante o período escolar. Você e quase todas as outras pessoas. Escola é um período turbulento com inúmeros problemas. Os que leram minha crítica ao sistema educacional em ruínas bem sabem o que eu penso: memorizar conteúdo inaplicável e abstrato em um sistema autoritário e inflexível é bem diferente de aprender. E não ajudam nada os coleguinhas desinteressados que divertem-se pisando nos que estão ali para aprender alguma coisa.
    Quanto a isso, meu conselho é: não esquenta, isso passa. De verdade. Você está lendo o texto de alguém que passou por isso (lê-se "nerd") e eu lhe garanto que, quando olhar para trás, rirá de como as pessoas que um dia tiraram sarro de você ficaram para trás, nos mais diversos sentidos. Você amadurecerá como pessoa e como profissional, enquanto alguns outros lamentavelmente provarão como correta a frase que diz "a pessoa sai da quinta série, mas a quinta série não sai da pessoa".
    Além disso, não superestime a importância das notas. Elas são úteis apenas na medida em que te passam de ano. O papo de que funcionam como indicador de desempenho é discutível, pois só é possível quantificar o aprendizado de maneira superficial. No vestibular, boletins bons provenientes de decoreba são inúteis. Por isso, aproveite o ritmo relativamente tranquilo do Ensino Médio para absorver o conteúdo.

CURSINHO
A extensão da escola?

    Consigo pressentir a quantidade de pessoas que me perguntarão sobre a necessidade de fazer ou não cursinho pré-vestibular, e diante destas vou jogar a real: cursinho não é extensão da escola. Apesar de muita gente fazê-lo como tal, é preciso encarar a realidade e perceber que o ritmo, a mentalidade e o espírito são outros.
    Sim, cursinho é "mais legal", como dizem por aí. Aulas com muita brincadeira (muitas peadas, como dizia um professor) para descontrair e uma liberdade enorme da qual gozam os alunos. De fato é assim. Entretanto, tudo isso vem com um preço. Não haverá mais pessoas dizendo o que você deve ou não fazer; é cada um por si.
    Deseja faltar aquele dia? Sinta-se à vontade, mas se vire para repor a matéria que equivale a duas semanas de aula do ensino médio. O mesmo vale para sair da sala. Sua preocupação não será passar de ano, e sim passar no vestibular, o que é bem pior em termos de insegurança e de incertezas para o futuro. "O que eu estou fazendo com a minha vida?" será um questionamento comum, caso você não tome as rédeas da própria disciplina e permita-se cumprir o horário de aulas, mesmo não sendo obrigado a tal.
    Caso esteja prestando um curso concorrido, especialmente se almejar uma universidade pública, é provável que precise de, no mínimo, um ano de cursinho. Não digo isso por desestímulo, mas por realismo, dadas as vagas escassas para a crescente quantidade candidatos que desejam preencher as vagas das universidades. Serei franco: não será fácil, muito menos animador, rever todo o conteúdo dos três anos de colegial e esforçar-se para aprender aquela matéria (ou matérias, no plural, numa colocação mais apropriada) pela qual você tem repulsa. Porém, é um período de amadurecimento que, em última análise, testa sua autodisciplina.

DIVERSÃO
Porque ninguém é de ferro

    Esse é um dos conselhos mais corriqueiros que costumam dar, talvez por sua relevância. Tome um tempo para si toda semana, nem que sejam as últimas horas do domingo. Sou um pouco suspeito de falar sobre festas e coisas do gênero, pois eu gastava a maior parte do meu tempo livre ficando em casa, lendo, escrevendo, ouvindo música e pensando nas coisas da vida. No entanto, não me arrependo; esta era a minha diversão. Cada um tem a sua. Saia com os amigos, encha a cara, assista séries, faça tricô ou realize qualquer outra atividade que te faça sentir bem.
    Muita gente acha que dedicar-se 24h por dia aos estudos significa necessariamente um desempenho excelente, mas é bem provável que o efeito seja justamente o oposto, por conta da inevitável sobrecarga. Além disso, é uma questão de garantir-se; se você sente uma necessidade enorme em passar o dia todo estudando, é porque está aproveitando muito pouco das aulas ou porque não confia no próprio taco. Estudar em ritmo obsessivo pode atrapalhar atividades vitais e causar um desequilíbrio mental muito grande, sendo contraproducente à própria aprendizagem.
    A vida não pode parar só porque os estudos continuam. A frase é clichê, porém verdadeira: você estuda para viver, e não o contrário.

DICAS DE ESTUDO
Porque saber a Lei de Markovnikov não basta

    Algumas dicas importantíssimas:
    I. Tire da sua cabeça que é necessário absorver tudo sobre tudo, como uma máquina faria. Você não precisa gabaritar o vestibular, a menos, é claro, que queira Medicina. Acalme-se, vestibulando de Medicina, a parte tachada é brincadeira; você pode largar a gilete, pausar a música da Demi Lovato e retomar seu pulso são e salvo junto ao mouse. Não é humanamente possível acertar tudo, pelo menos não em condições mentais saudáveis. Nem mesmo os que formulam as provas conseguiriam gabaritá-las, porque muito embora dominem suas respectivas áreas do conhecimento, jamais seriam capazes de dominar todas elas ao mesmo tempo, especialmente tendo a idade que você tem e com apenas cinco horas de prova à disposição. Se nem os formuladores das provas conseguiriam, qual o sentido em cobrar de si mesmo tal feito? O que você precisa é sair-se melhor que seus concorrentes, o que é radicalmente distinto de tentar ser um robô capaz de resolver todas as questões.
    II. Estude por gosto. Se você lesse um parágrafo escrito por mim em 2011, provavelmente cairia de costas. É impressionante o quão "gostar de escrever" mudou minha escrita. O mesmo vale para matemática, história e filosofia. Não serei hipócrita: é claro que não é fácil amar tudo, e química está aí para provar isso. Mas o modo com o qual você encara sua própria rotina de estudos pode causar resultados estrondosos. Ainda que não seja possível gostar de todas as matérias, procure adorar algumas, e as outras tornarão-se... suportáveis. O importante é jamais ver os estudos como obrigação, e sim como algo que é necessário para atingir seus objetivos e que pode perfeitamente ser aprazível. Deste modo, você estará estudando porque busca realizar seus planos a longo prazo, e não por um mero processo mecânico.
    III. Vai parecer um conselho óbvio e até repetitivo, mas a importância dele é maior do que você pode imaginar. Não decore; aprenda. Ainda que seja útil saber a Lei dos Cossenos, sua utilidade é reduzida a pó se você não entender o que está fazendo. Questionar "por quê?" durante as aulas ajuda a reduzir o abismo que existe entre a realidade e um conceito abstrato, e de quebra te faz criar um certo apreço pela matéria, o que acaba atendendo ao item II de um certo modo.
    IV. Faça simulados. Aliás, não faça, devore simulados. Isso treina sua resistência e seu psicológico para aguentar cada vez mais as cinco horas de prova a fio e, quando chegar o grande dia, você estará preparado ou, como gosto de dizer, anestesiado. Caso almeje alguma faculdade específica, tente fazer o máximo de simulados desta faculdade de modo a acostumar-se com o perfil de prova. O tipo de questão passa a ser previsível, na medida do possível, e você se familiariza com a natureza do vestibular que está prestando. No meu caso, fiz as provas da UFPR dos 8 últimos anos e garanto que isso foi de grande ajuda.

MOTIVAÇÕES
Acorde cedo de segunda a segunda com a cabeça erguida

    Vão existir dias em que o campo gravitacional da cama vai parecer maior, sim, mas são justamente nesses dias que você percebe o quão determinado está a atingir suas metas. Pesquise as universidades e os cursos almejados, veja imagens, converse com pessoas que o fazem. Não tenha vergonha; você descobrirá que seus futuros veteranos são mais receptivos do que pensa. Inspire-se e imagine-se daqui a algum tempo em sua vida ideal. Confesso que passei muitas horas do meu tempo livre observando as casas e apartamentos em grupos de dividir moradia no Facebook, imaginando como seria o meu cantinho quando eu criasse independência. É importante para dar um gás nos estudos.

PSICOLÓGICO
Saiba ser o seu próprio guia

    O estado psicológico do candidato ao fazer o vestibular é decerto um fator determinante. Por isso é essencial que você entre na sala de prova de cabeça erguida, confiante, ciente de que você estudou para estar ali e não simplesmente caiu de paraquedas, como alguns de seus concorrentes. Isso influi muito para que seu resultado final seja positivo.
    A culpa pode ser boa, no sentido produtivo, mas somente e tão somente se ela for usada a seu favor. Culpar-se por ter perdido aquela aula e usar isso como combustível para estudar algumas horas a mais daquela matéria, por exemplo, é uma boa. Todavia, sofrimento por sofrimento é prejudicial; pode ser um desestímulo letal. É preciso entender de uma vez por todas: há coisas que não dependem de você, como a concorrência alta, a dificuldade da prova, a escassez de recursos financeiros para pagar uma educação de elite. Identifique as coisas que fogem ao seu controle e não deixe que elas te atinjam. Concentre seus esforços em fazer o que está ao seu alcance — como estudar com o que lhe é disponibilizado, tirar dúvidas em momentos oportunos etc. — e, se ainda assim não for suficiente, pelo menos você não ficará martirizando-se pois terá dado o seu melhor.

SEJA GRATO
Esta conquista não é só sua

    Quando passar, uma boa parte do mérito será seu, claro. Você poderia ter esperado seu futuro cair do céu, mas foi atrás de construi-lo, tijolo por tijolo, dia após dia. No entanto, há mais pessoas por trás das cortinas fazendo o show acontecer.
    Seus pais ou responsáveis são aquelas pessoas sem as quais você jamais teria saído do lugar. O apoio deles é indispensável, seja pagando colégio, cursinho, transporte, alimentação, moradia, sustento ou qualquer outra coisa do gênero. Inclusive, não só o apoio financeiro, mas o psicológico também, que não é menos importante. Investir em alguém significa acreditar no potencial desta pessoa, e você deve saber reconhecer isso e ser profundamente grato a eles.
    O mesmo vale para seus professores. Todos eles. Pode parecer mero papo de moralista, mas não é: perceba que você não seria quem é hoje se não houvesse tido pessoas pacientes para transmitir o que jamais poderão roubar de você: o conhecimento. E é um trabalho acumulativo, pois você não teria sequer aprendido o Teorema de Pitágoras se não tivesse havido alguém para te ensinar potenciação na sexta série, e assim por diante.
    Com seus amigos não seria diferente.  Já vi gente sacrificando as amizades para devotar-se aos estudos e, acredite, é a pior coisa que alguém pode fazer. Amigos dão apoio psicológico e trazem seus pés ao chão nos momentos de estresse. Como diria Raul Seixas, "nunca se vence uma guerra lutando sozinho".

Humanidade de cristal

    Bem sabem os que acompanham meus devaneios noturnos pelo Twitter que sou cheio de teorias, no sentido mais banal da palavra. Não direi que tenho licença poética para isso pois reservo o direito de não ser apedrejado pelos leitores que não gostam de clichês; no entanto, é preciso dizer que, apesar das teorias em questão serem baseadas num certo empirismo, são tão mirabolantes que me sinto na obrigação de pedir que recebam-nas com bom humor e que não apliquem a elas rigor científico. Este texto é, antes de tudo, um desafogo de escrever tantos outros de compromisso com as convenções impostas estabelecidas pelo vestibular.
    Eu poderia falar aqui sobre minha teoria de que, quanto menor for um cachorro, mais demoníaco ele será, e igualmente maior será a probabilidade de meus vizinhos arrumarem um, ou sobre muitas outras maluquices cujo índice de aplicação é assustadoramente alto, mas falemos sobre algo mais construtivo. Não que o assunto realmente importe, já que cerca de oitenta por cento dos meus visitantes saem do blog sem ao menos ler uma frase. Sim, o Google Analytics está de olho em você — neste momento, inclusive! Brincadeira, brincadeira. Ou não. 

    Cortarei o papo-furado e colocarei as cartas na mesa: o ser humano é frágil. Imensa, terrível e irremediavelmente frágil. Sinta-se à vontade para espernear o quanto achar necessário, ou até esbravejar que esta é uma generalização que ofende a masculinidade alheia. O choro é livre.
    Ao nascermos, possuímos uma fragilidade tremenda. Contudo, ao contrário do que as pessoas preferem pensar, isso não muda à medida que crescemos. É que, com o tempo, acostumamo-nos com a solidão, com a decepção e aprendemos a resignarmo-nos diante do fato de que a vida deixa de corresponder nossas expectativas com uma frequência maior do que a suportada. Construímos uma carcaça que o próprio mundo nos exige, porém, dentro dela, continuamos tão vulneráveis quanto cristais.
    Eu, você, o padeiro, a executiva casca grossa, o general, os que vieram antes e os que ainda estão por vir; todos nós temos algum ponto fraco, ainda que uns demonstrem mais e outros menos. Ninguém escapa à regra. Um trauma, uma palavra específica que nos fere, o medo da rejeição social, ou mesmo alguém que, se pudéssemos, apagaríamos de nossa memória. Cada pessoa que encontramos na rua tem sua história e batalhas próprias, das quais somente ela tem consciência. As feridas estão lá, vivas, latentes, e podem ser muito dolorosas se não formos cuidadosos com onde tocamos.
    Tudo isso parece muito negativo, mas a boa notícia é que não somos robôs. You don't always have to be on top. E este é um dos motivos pelos quais deletei meu texto intitulado como "Sorria", no qual exaltei a felicidade a qualquer custo: porque percebi, depois, que sorrir nem sempre é fácil, e que nem todo palhaço é feliz. Parte da compreensão da nossa fragilidade diz respeito a, justamente, reconhecer que não somos de aço. Está tudo bem em abraçar o ursinho de pelúcia antes de dormir. Parece conversa de livro de autoajuda, mas não é. Este reconhecimento é, de fato, o primeiro passo para aceitar nossa pequenez humana e lidar com isso de modo humilde.

Carpe diem
na prática

    Frases prontas de bom-dia ditas no rádio durante o horário matinal não me são suficientes. Palavras carregadas de pieguice, usadas somente para agradar os ouvidos de quem as ouve, sem no entanto passar por qualquer digestão reflexiva, não enchem barriga. São como aqueles xaropes de marca barata que adoçam nosso paladar por um instante e, ao que nos damos conta, sobra apenas um gosto amargo de algo que foi mais vão do que deveria ter sido.
    Tenho um quê com a modernidade. Não me entenda mal: como exímio membro da geração Z, seria hipocrisia e talvez até ingratidão não admitir que as novas tecnologias fizeram parte de minha formação. No entanto, amargura-me ainda mais o paladar ver como as pessoas costumam contentar-se com coisas tão vagas. Quem nos dera que metade dos selfies contendo como legendas frases aleatórias de biscoito da sorte fosse posta em prática.
    O que faz com que as palavras sejam algo maior que meras letras enfileiradas? A absorção real de seu sentido. A banalização desta faz com que mensagens realmente importantes se percam, juntando-se ao conjunto de máximas populares preconcebidas tão vazias quanto o niilismo de Nietzsche.
     Perceba que não estou instaurando aqui uma vigilância virtual. Não é necessário que sejamos a Rainha de Copas e demandemos que "cortem a cabeça" dos que eventualmente compartilharem músicas apenas porque estas são agradáveis — e não necessariamente por possuir um sentido profundo. Cada um é livre para manifestar-se como melhor achar. Proponho apenas que coloquemos a mão na consciência antes de fazer uso de frases tão fortes em situações de dimensão leviana, de modo a darmos um basta nestes espetáculos chafurdados em superficialidades e dramas desnecessários.
    Em vez de pregar frases cujos verbos sequer conseguimos conjugar adequadamente, dizendo vagamente o quão lindo está o dia (apesar de mal ter olhado para o céu), que tal distribuirmos sorrisos no parar do semáforo? Um genuíno "muito obrigado" a quem prepara sua comida? Ou, ainda mais raro, um "como você está?" realmente interessado na resposta?
    De nada adianta fazermos politicagem nas redes sociais e desejar que o dia de todos seja ótimo, se, minutos depois, passamos pelo porteiro de nosso prédio como se sua existência fosse insignificante. Lero-lero não faz o mundo girar. Atitudes positivas o fazem.

Ponto

     O ser humano possui um certo problema com a abstração de grandezas.
    A barata que entra pela janela decerto deve ter escolhido a casa errada, especialmente quando não estamos em nossos melhores dias. Apenas uma chinelada é suficiente para fazermo-nos sentir grandiosos diante da tal e mostrar quem manda. A menos, é claro, que ela voe; aí complica um pouco. O mesmo vale para o mosquito que, sabe-se lá como, encontra a única parte de nosso corpo descoberta antes de dormir — a cabeça — e insiste em zumbir em nossos ouvidos. Apesar do inevitável tapa que damos em nossas próprias orelhas, mostramos que estamos no controle.
    No entanto, não é difícil perdermo-nos em pensamentos ao olhar para cima num dia aberto e deparar com o gigante céu anil, cujas nuvens macias estão mais longe do que nossa mente pode sequer imaginar. Ou, ainda, surpreendermo-nos com as pessoas que viram pequenos pontinhos aos nossos olhares quando decolamos pela primeira vez.
    Somos apenas alguns dos tantos outros pontinhos que já pisaram e que ainda pisarão na Terra. Ela própria, inclusive, é outro pontinho azul, no meio do nada e rodeada por uma infinitude de outros pontos.
    Não importa o quão grandiosos nos sintamos ao realizar uma proeza, o número de diplomas acadêmicos acumulados ou mesmo a quantidade de zeros no saldo da conta bancária. O fato é que, se um minuto de reflexão for-nos permitido, sentiremos nos ossos e na carne o quão pequenos somos.
    Perceba, entretanto, que não há nada de errado com isso. O que nos distingue dos pontos de tinta — ou de pixels, se preferir — é que nós, ao contrário destes últimos, possuímos a capacidade de falar, comer, chorar, tolerar, sentir. Temos, sobretudo, sonhos, amores e outros pontinhos pelos quais viver. E se nos é dada a oportunidade de fazê-lo, é preciso que façamo-lo, seja como for. Contanto, claro, que nos sintamos bem e nos asseguremos de que ninguém é prejudicado.
     Tudo que fuja disso — arrogância, complexo de superioridade, autoritarismo, malevolência alheia — não tem fundamento, justamente por basear-se na premissa de que alguns pontinhos são maiores que outros. Não. Pontos são pontos. A paz reside em aceitar nossa pequenez humana com humildade.

Franqueza

    Sempre tive um compromisso com a verdade. Não só de papel passado, mas também de coração. E não é nem questão de moralismo, como algumas pessoas podem pensar.
    A vida se constrói de pequenas conclusões às quais chegamos ao longo dos anos. Dezoito primaveras foram-me suficientes para perceber que tinha razão minha avó quando dizia que mentira tem perna curta.
    Que me perdoem os céticos, mas é fato. Faço aqui uma constatação empírica, seja ela garantida pela Lei de Murphy, pelo Logos, pelos princípios herméticos ou pelo que preferir. Quanto mais mentiras você traça para contornar as situações — ou as pessoas —, mais evidente é o risco de enrolar-se na própria teia.
    Claro, não sejamos presunçosos: o tempo varia. Não é do dia para noite. Pode levar um mês, um ano ou dois milênios. No entanto, o organismo vivo que é a verdade trabalha para vir à luz. Nesse meio-tempo, o que pode ter começado com uma palavra se torna uma bola de neve. Você pode até pará-la em um determinado ponto e achar que se safou, porém, apesar de não ter percebido, ela sujou todo o caminho por onde percorreu.
    Não venho por meio deste propor a discussão de debates abertamente filosóficos, religiosos ou políticos, até porque as linhas seriam incontáveis se as verdades relativas fossem o assunto. Antes, refiro-me à falta de comprometimento com as verdades cotidianas; à mentira contada aos pais para ir à tal festa; à justificativa inverídica dada à namorada quando é questionado se está tudo bem.
    A solução obviamente não é fazer voto permanente de sinceridade e viver como um monge tibetano. Não é preciso extremismo: é mais simples que isso. A paz reside em evitar mentiras desnecessárias. Caso contrário, você falta com a verdade com tamanha naturalidade que passa a perder a sinceridade até consigo mesmo; por consequência, perde a confiança em toda a raça humana, pelo simples motivo de não tê-la nem em si próprio.
     Adianto desde já, porém, que cometem um grotesco equívoco os que hasteiam a bandeira do "sou sincero a qualquer custo". Sinceridade não significa dizer o que quiser a quem quiser. É preciso tomar cuidado para não tornar tênue a linha entre franqueza e crueldade. Os que não conseguem guardar comentários desnecessários para si próprios deixam transparecer a infantilidade ao lidar com o mundo que os cerca. Isso não é ser autêntico; é ser mal educado. É perfeitamente possível ser franco sem cair na deselegância; com empatia e gentileza, tudo se resolve. É só questão de saber como fazê-lo.
    Mas voltando aos que abraçam a mentira como se esta fosse um remédio rápido para as mais simples situações, é importante ressaltar que a natureza tem seus meios para fazer a verdade vir à tona. Trata-se de praticidade: se é somente uma questão de tempo para surtir as consequências, por que mentir? No final, a mentira acaba invariavelmente custando mais caro que a verdade. A verdade é filha do tempo.

Fragmentos

    Na mesa jaz um exercício não terminado, em forma de cálculos e desenhos geométricos perdidos pela folha de papel. Enquanto a chuva bate ruidosamente contra a janela de vidro, frases melódicas ao som do ukulele e do trompete preenchem o que resta do espaço entre meus pensamentos inquietos. "Let the seasons begin", diz ele. "It rolls right on."

    Algumas eventuais abas abertas, mas nada relevante. Apenas redes sociais, que ficam ali feito figurantes num filme, sem muito o que acrescentar. Apesar do desinteresse, uma curiosidade ínfima dá a ordem para que meus dedos continuem a arrastar a barra de rolagem.

    Tudo me soa medíocre. A cidade interiorana, o século das futilidades e sobretudo as pessoas. Que diabos de raça é esta, que se considera a mais racional, sendo dentre todas a única que mata por puro sadismo? A mais impertinente, tentando atribuir sentido a tudo, como se o universo inteiro obedecesse à lógica pretensiosa do ser humano. A mais crítica, que se acha no direito de julgar quem bem entender. Sim, caí em contradição — pois é exatamente o que estou fazendo neste parágrafo: julgando —, porém, não admitir isto seria hipocrisia, e fazê-lo seria nada mais que reconhecer minha defeituosa essência humana. Portanto, não me resta outra escolha senão reconhecer minha própria mediocridade.
    O futuro, embora chegue segundo por segundo, parece-me mais distante que nunca. E pior: é imprevisível, traiçoeiro. Carrego comigo o medo de decepcionar a mim mesmo e àqueles que amo, de ser incompreendido, e até mesmo o medo do próprio medo. Tenho ciência de que sofrer antecipadamente não é lá muito sensato, porém, ainda assim, a insegurança é inerente à minha condição humana.
    Enquanto os grandes sonhos, incertos, se esboçam a distância, limito-me a expor fragmentos de uma mente desguarnecida, tornando-os acessíveis a qualquer um que tenha cinco minutos e um mínimo de disposição para lê-los. Invariavelmente, sujeito-me às críticas do leitor. Embora as palavras aqui colocadas possam ser consideradas inconclusivas ou até mesmo sem finalidade clara, pouco importa. O título do blog está aí e não é à toa. De qualquer modo, foge ao meu alcance transmitir uma boa impressão, afinal, sempre haverá julgamentos. Importar-me com eles, porém, está fora de questão.

A vida por detrás da simplicidade

    Eu poderia começar o texto com palavras complicadas e impessoais, evitando usar o "eu" e analisando criticamente algum tema polêmico. É claro que poderia. Poderia também evitar repetições de palavras, pois afinal de contas, um texto que se preze não tem qualquer semelhança com a linguagem cotidiana.

    Para quê usar palavras objetivas e claras, quando existem as complexas e vagas para preencher longos períodos de tempo? É sempre bom incluir expressões como "sociologicamente falando", por mais que elas não acrescentem muita coisa ao sentido da sentença. E se for uma aula na qual seja preciso mascarar a falta de conteúdo, uma boa dose de gerundismo é sempre bem-vinda. Até porque, "Iremos estar desenvolvendo os aspectos decorrentes do assunto proposto pelo material didático" soa muito melhor que "Vamos seguir a apostila".
    Onde estou querendo chegar com toda essa ironia? Simples. As pessoas insistem em coisas desnecessárias. Não é uma crítica, pois muitas vezes também me incluo neste grupo; eu diria que é mais uma reflexão. Por que precisa ser tudo tão complicado? Não vou nem entrar no mérito do sistema educacional nesse texto, porém, é válida a linha de questionamento sobre a real necessidade de aprender, em média, doze matérias no ensino médio para se tornar alguém de prestígio.
    E no meio de tantas regras e burocracias massantes, fica difícil reconhecer a importância das coisas simples. Acordar por conta própria, sem compromissos; sentir o cheiro de café às manhãs; fazer e receber gentilezas gratuitas; admirar a infinidade do céu num dia ensolarado; jogar conversa fora por horas e horas com alguém querido. Pode parecer fútil, mas tudo isso faz parte de um lado lindo da vida que se esconde justamente onde menos se espera. Compare este descomplicado texto em prosa, por exemplo, a uma poesia carregada de vocábulos e metáforas que ninguém entende. Apesar da preferência acadêmica pela última opção, é inegável que estrutura simples da primeira a torna muito mais humana, por assim dizer.
    Insisto nessa questão porque muito da banalização que vemos hoje em dia é decorrente disso. A maioria dos relacionamentos amorosos são baseados apenas em pegação, demonstração de afeto através de presentes caros e meras formalidades, esquecendo-se das pequenas coisas que compõem verdadeiros laços, como perguntar — e realmente se importar — sobre como o dia da pessoa foi, ou trocar olhares tão profundos que chegam a ser mais significativos que palavras.
    Certa vez li em algum lugar que "mais vale meio quilo de comida saboreada e mastigada do que dois de comida engolida". A vida é certamente muito curta para ser desperdiçada, mas é ainda mais curta para ser vivida de forma mecânica, indiferente aos pequenos detalhes.

2012 — Sinceros desabafos

     Estive por muito tempo pensando em escrever este artigo. Faltam apenas alguns dias para o fim do ano, e ainda há muita coisa mal resolvida e ninguém se deu ao trabalho de levantar a voz pra reclamar. O problema com o qual eu me deparei foi o de não encontrar exatamente uma finalidade para este texto; afinal, como sempre digo, indicar onde está o defeito não irá resolvê-lo. No entanto, decidi escrever assim mesmo, com ou sem finalidade, pois existem certas coisas que precisam ser ditas.
     Muita intriga desnecessária e muita gente que faz questão de levantar a voz na hora da discussão e que nem cogita a possibilidade de estar errada. Na maioria das vezes, tudo isso é motivado por egoísmo, caprichos próprios e principalmente falta de comunicação — talvez até consigo mesmo.
     Valores exageradamente atribuídos a coisas que, pela lógica e pelo bom senso, não necessitam de tanta atenção, tendo em vista que existem outras coisas bem mais importantes. Isso se resume às pessoas que valorizam mais as notas escolares do que o aprendizado em si; que perdem tanto tempo pensando numa resposta e acabam não prestando atenção na real importância da pergunta; que se preocupam tanto com beijos molhados que se esquecem da verdadeira essência da relação.
     Isso sem falar no Futebol. Essa alienação que grande parte da população brasileira possui está saindo mais caro do que o esperado, se tratando tanto dos cofres públicos quanto da evidente carência que os setores de educação e saúde pública sofrem. Não que eu desmereça o importância do Futebol, até porque, ele desempenha um grande papel em nossa cultura e, além disso, é um grande precursor na economia nacional, principalmente quando se diz respeito a turismo. Entretanto, é inegável a necessidade de uma dose de discernimento para que não coloquemos esse tema como prioridade máxima; caso contrário, seremos escravos eternos de um sistema que desvia a atenção pública de onde deveria estar.
     Já aproveitando o assunto, isso me lembra que em plena Era da Informação, ainda há pessoas com a ridícula ideia de que se ausentar da participação política — por vezes até preferindo não comparecer à urna e pagar uma multa —, como se isso resolvesse a situação que o Legislativo atual encontra-se: afundado em corrupção. Mas pretendo escrever um texto especificamente sobre isso, então vamos ao próximo ponto.
     Outra coisa que também está ligada e que, por mais que exista muita gente que critique, as pessoas não param realmente para perceber a verdadeira gravidade da questão: a constante manipulação de massas chamada mídia televisiva. Não vou cair no clichê e culpar somente a Rede Globo, pois claro que, embora seja a grande líder nos rankings, não é a única a agir nesse sentido. E queira me perdoar, leitor, se estou relatando o que já é bem óbvio, mas esses meios de comunicação são uma poderosa (e perigosa) distração que impedem a população de se preocupar com os problemas de desvio de dinheiro. Não é de admirar que, segundo o Estadão, a Polícia Federal atualmente conduz mais de três mil inquéritos sobre corrupção só no âmbito municipal. É como dizem: a mídia televisiva é como um "quarto Poder" que certamente exerce um grande domínio sobre, perdoem-me os moralistas pelo uso do termo, a massa cultural.
     Contudo, tomo a liberdade de fugir um pouco desse tema por um momento e discutir outra coisa que, embora não seja uma questão governamental, acredito ser tão importante quanto. Mas antes de embarcar nesse assunto, já prevenindo possíveis respostas grosseiras, eu gostaria de esclarecer que estou ciente de que "não é da minha conta" como cada pessoa leva sua vida e concordo totalmente com o fato de eu não estar apto a julgar ninguém. Portanto, não entenda isso como um julgamento, pois não é; como o próprio título sugere, é mais um desabafo.
     Indo direto ao ponto: me incomoda, de certo modo, essa felicidade superficial que algumas pessoas insistem em cultivar. Elas têm milhares de amigos nas redes sociais, recebem centenas de "curtir" em suas fotos (extremamente banais, por sinal), mas no fundo, são completamente desprovidas de amigos verdadeiros. Claro, sempre tem aqueles "amigos" mais próximos, mas na primeira oportunidade, saem falando mal destes pelas costas. Falando assim, até parece coisa de filme americano, mas tenho certeza que você conhece, no mínimo, uma pessoa assim.
     Às vezes me atrevo a ir mais longe do que simplesmente observar e tento supor uma justificativa para tal coisa: será, essa necessidade de adquirir produtos de marca, uma tentativa de suprir o vazio (tanto sentimental como racional) presente? Ou talvez seja pura futilidade? Provavelmente nem as próprias pessoas  que fazem isso saibam a resposta.
     E para fechar com chave de ouro, acho incrível aquelas pessoas que levantam prontamente as mãos para louvar a Deus, mas não levantam as mesmas mãos pra ajudar quem precisa. Gente que vai à igreja todo domingo (ou, em certos casos, com mais frequência ainda), e se concentra tanto nas regras bíblicas, que acaba se esquecendo da mais importante: o amor ao próximo. Sem querer ser chato, mas já sendo: só porque você compartilhou a foto de uma criança doente no Facebook, isso não significa que você está agindo com amor ao próximo. Requer um pouco mais de esforço que isso. É preciso fazer o bem sem ver a quem (embora muita gente só faça o bem para as pessoas que partilham os mesmos pensamentos religiosos) e, acima de tudo, sem esperar nada em troca. Afinal, como dizia Alexandre, o Grande: os tesouros que aqui conquistamos, aqui deixamos.
     Por fim, é isto. Espero não ter passado a impressão errada. Adianto-me a ressaltar, novamente, que assim como qualquer outra pessoa, sou repleto de defeitos e, mesmo aprendendo com eles, continuo tendendo a errar. Mas como já mencionei, a finalidade deste artigo é desabafar. Infelizmente, acredito que seja impossível fazer isso sem criticar algumas posturas...

Depósito de pensamentos

    Enquanto o passado expõe nossas vitórias e derrotas numa lustrosa vitrine de esquina, o futuro nos prepara uma reserva num inimaginável restaurante, na presença dos mais inesperados acompanhantes. E o presente, ah, o presente! Nos materializa no meio de uma encruzilhada de onde partem inúmeros caminhos. Somos sucumbidos, então, à árdua função de decidir qual trilha tomar. Essa decisão é inevitável, pois ainda que você tente enganar o “destino” (ou seja lá como cada um chama) não escolhendo nenhuma direção, alguma direção irá te escolher, como uma ventania que leva um barco à vela por mar à fora, sem rumo específico.
    Pessoas entram e saem feito peças em um jogo de tabuleiro, dando a impressão de que a é a vida quem imita o Jogo da Vida, quando deveria ser o contrário. Todas essas peças estão à mercê dos poderosos dados que guiam aleatoriamente os acontecimentos circunstanciais, e os resultados disso podem ser os mais imprevistos possíveis.
    Valores e opiniões estão em constante mudança, feito as figuras de um caça niqueis. Às vezes, inclusive, é preciso muito esforço para discernir sobre o que deve ser mudado e o que deve ser conservado. Afinal de contas, existem situações em que um escritor não consegue continuar uma história somente virando a página; por vezes é preciso passar uma borracha em determinadas partes que o impedem de continuar.